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Memórias da Redação

    12.08.13 - Memórias da Redação – Por favor, não mudem a missão do jornalista

    A história desta semana é mais uma vez colaboração de Nereu Leme (nereu@casadanoticia.com.br), presidente da Casa da Notícia Comunicação, que foi por muitos anos da Folha de S.Paulo.

    Por favor, não mudem a missão do jornalista

    Um dos maiores orgulhos do meu tempo de redação era sermos, nós, jornalistas, chamados de intelectuais. Verdade ou não para alguns, essa denominação também nos enchia de responsabilidade. Escrever certo e evoluir sempre.

    Outros tempos, sem internet. Nem mesmo computador. Máquinas de escrever e laudas rasuradas num escreve-corrige em busca do melhor lide (lead) que, diziam os mais experientes escribas, era aquele que ainda não havíamos feito.

    Priorizávamos nossa missão de informar, com imparcialidade – o que hoje não é mais o primeiro mandamento – e levar conhecimento e cultura ao nosso leitor, nosso rei. O desafio era introduzir, em um texto comum, informativo do dia a dia, uma nova palavra ao vocabulário de nosso preclaro leitor, sem traduzir em seguida, mas, também, sem obrigá-lo a recorrer ao dicionário.

    A nova palavra era adicionada, auferindo ao texto riqueza, qualidades.

    Na época, nem conseguíamos ser tão explícitos, como o negrito destacado na frase anterior. Muitos jornalistas aprenderam a escrever bem com esses exercícios instigantes, que nos desafiavam a ampliar ainda mais nossos conhecimentos.

    Nessa gloriosa tarefa para nós, repórteres, entregávamos o texto para o editor e depois atazanávamos, espicaçávamos ou simplesmente importunávamos os copidesques para saber o que haviam mudado no nosso texto, e por quê.

    Um dos jogos culturais era escrever toda a matéria sem usar a palavra que ou dois pontos. Recentemente, descobri que um médico amigo deixou de ser assinante de um grande jornal porque seus redatores não usavam o que. Trocavam “ele tem que fazer algo” por “ele tem de fazer algo”. As duas formas são corretas, mas o Houaiss sugere o uso do que, considerado mais moderno por ele.

    O “de” seria mais impositivo, para ser usado em determinadas situações – por exemplo, “Ele tem que ir ao jogo, pois torce pelo timão” e “Ele tem de pagar os impostos”.

    Outro jogo cultural que fazíamos nos bares próximos ao jornal Folha de S.Paulo era usar palavras pouco conhecidas para ver se o grupo acertava o significado. As correções sempre eram feitas com o auxílio de um dicionário. Ou cometer algum erro crasso, bem grosseiro, propositalmente, quando algum jornalista novo aparecia em nossas reuniões.

    Outros jornalistas, como eu, continuam tentando escrever melhor e, por isso mesmo, se indignando, ou se revoltando com as mazelas dos meios atuais de comunicação, principalmente a televisão.

    Embora seja o veículo de comunicação mais popular, de massa, que influi diretamente no comportamento cultural da população, em alguns casos a televisão não prima pela qualidade do vocabulário. Certo é que a língua deve evoluir e criar novos vocábulos. Não devem esses meios de comunicação, no entanto, ensinar errado, banalizar nossa língua portuguesa, bela e rica em sinônimos e seus opostos, os antônimos.

    A gente “somos” banais!

    Durante a cobertura das manifestações pelo Brasil afora, em junho, os apresentadores e repórteres de televisão (imagino que nas rádios também) usaram e abusaram do substantivo feminino gente, que não é pronome, mas pode ser aplicado, em determinados casos, como sinônimo de conjunto dos habitantes de um país, ou de quantidade indeterminada de pessoas.

    O uso da expressão “a gente”, em substituição ao pronome “nós”, é uma característica da fala coloquial brasileira, segundo o gramático Sérgio Nogueira.

    Porém, nessas coberturas, uma apresentadora de tevê usou tanto a expressão nas transmissões ao vivo, que pareciam não existir os pronomes eu, nós, eles, muito menos os substantivos os manifestantes, o povo e as pessoas.

    Para não correr o risco de errar na gramática, principalmente na concordância, ou, pior ainda, por falta de vocabulário, ela repetia a todo instante: “A gente vê muita gente na manifestação”. Quem é a gente que vê? Quem é essa gente na manifestação? Ninguém tem nome, adjetivo? Quem são essas pessoas?

    Ou seja, banalizaram a nossa “gente”. A gente “somos” banais, como na música Inútil, do Ultraje a Rigor.

    A tevê e o rádio podem e devem ser coloquiais. Mas não abusar da informalidade e dar ao telespectador ou ouvinte a impressão errônea de que é assim que se fala.

    É como o uso indiscriminado da palavra “coisa”, também aplicada indevidamente como pronome. Um amigo do professor Sérgio Nogueira (segundo ele contou em uma entrevista) disse a ele, certa vez, que “coisa é usada para tudo e não significa nada”. Um conhecido apresentador esportivo, durante a transmissão de um jogo, perpetrou uma frase antológica: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. E tem coisa saindo para todo lado.

    Pior ainda é usar “gente” e flexionar o verbo no plural. Foi o que fez uma repórter, também apresentadora eventual de telejornais, no dia 11 de julho. Durante cobertura de uma manifestação na avenida Paulista, disse no Jornal Hoje “a gente pudemos observar”.

    Melhor não!

    Por: Nereu Leme

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