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Memórias da Redação

    27.06.14 - Memórias da Redação – Um tipógrafo na colônia

    O texto que escolhemos para esta semana, por seu conteúdo histórico, é a introdução de Um tipógrafo na colônia, de Leão Serva, hoje na Santa Clara Ideias, O livro aborda a vida e a obra de seu antepassado Manoel Antonio da Silva Serva, precursor da imprensa no Brasil e das fitas do Senhor do Bonfim.

    Um tipógrafo na colônia

                Em 1911, nas comemorações do centenário da fundação da imprensa na Bahia, Octavio Mangabeira proferiu um discurso em homenagem a Manoel Antonio da Silva Serva, criador da primeira tipografia no Estado e responsável pelo Idade d’Ouro do Brazil, o primeiro jornal feito por iniciativa particular editado no País, além da primeira revista brasileira, As Variedade ou Ensaios de Literatura. Em sua palestra, o engenheiro, jornalista e posteriormente governador do Estado e senador declarou:

    Declinando, como há pouco declinei, o nome do comerciante lusitano que fundou entre nós a Idade d”Ouro, deixai também que reclame uma parte dos lauréis da comemoração que fazemos para uma família quase extinta, que dorme no anonimato, e a quem não sei se me tema de classificar de benemérita, por isso que, durante algumas décadas, seu nome se acha diretamente ligado à manutenção e ao progresso do jornalismo baiano.1

                Sem que o intelectual baiano soubesse, a “família quase extinta” seguia sua história, ativa, crescendo e se multiplicando, embora longe dali.

                A “quase extinção” dos Serva, a que se referia Mangabeira um século atrás foi causada pela diáspora provocada em todo o Brasil pela Guerra do Paraguai. Naquele episódio histórico, que contribuiu para a solidificação da ideia e para a formação objetiva do País como poucos fatos ocorridos antes e depois, centenas de milhares de brasileiros foram forçados a migrar, por questões econômicas ou militares que começaram temporárias e para muitos se tornaram permanentes. Assim ocorreu com os Serva na Bahia, cujos filhos foram enviados para o front, do qual muitos deles não mais voltariam aos “mares e campos baianos”.

                Ao final do conflito no Sul do País, um neto de Manoel Antonio da Silva Serva, chamado Jayme Soares Serva, que servira no Exército como oficial médico, radicou-se no interior de São Paulo, casou-se, mudando-se em seguida para a capital paulista, onde militou na causa republicana e antiescravagista e teve nove filhos, dos quais vários tiveram relação coma imprensa e com as artes. Antes mesmo do discurso de Mangabeira, o jornalista Mário Pinto Serva atuava na imprensa e na política paulista, tendo se tornado ao longo dos primeiros anos do Século XX uma voz destacada do jornalismo e um dos principais porta-vozes da Liga Nacionalista, graças ao espaço que Júlio de Mesquita oferecia em O Estado de S. Paulo à sua campanha pela modernização da vida brasileira, a qual incluía, entre outras ideias, a alfabetização obrigatória e o voto secreto. Ambas as iniciativas iriam ser consagradas em leis de autoria de Mário Pinto Serva nos anos 1930.

                Mário fez parte também do grupo de jornalistas do Estadinho, um segundo jornal publicado com sucesso por O Estado de S. Paulo durante a Primeira Guerra Mundial, que perdeu influência depois do conflito. Após o fechamento da publicação, o grupo se juntou para fundar a Folha da Noite (um dos jornais que deram origem à Folha de S.Paulo), ironicamente tendo como figura mais proeminente Júlio de Mesquita Filho, herdeiro do jornal concorrente. Mais tarde, já no fim dos anos 1920, Mário Pinto Serva participaria do Diário Nacional (1927-32), onde revezou com Mário de Andrade em uma coluna de crônicas, até o empastelamento do jornal após a derrota militar do Movimento Constitucionalista de 1932. Crítico ácido das vanguardas artísticas europeias, paradoxalmente também foi um dos colaboradores da Revista de Antropofagia, em 1928.

                Pouco depois do centenário do primeiro jornal baiano, em 1911, outro descendente de Silva Serva participava do desenvolvimento da imprensa brasileira, também longe da Bahia. Em 1914, Gelásio Pimenta e sua mulher, Victoria Serva, lançaram em São Paulo A Cigarra, revista de variedades que marcaria época com um noticiário que misturava celebridades à alta cultura, alquimia que hoje parece impossível. Gelásio morreu em 1924, e a revista, em situação quase falimentar, foi saneada por seu cunhado, o comerciante Leão Serva, e em seguida incorporada ao patrimônio de Assis Chateaubriand, dono da revista O Cruzeiro e grande magnata da mídia tupiniquim.

                Não se extinguiu a família Serva nem se desfizeram seus laços com o jornalismo, portanto. Mas ela deixou a Bahia, onde não esteve representada nas comemorações do centenário da principal obra de seu ancestral. Naquele longínquo 1911, em que a família já se encontrava separada em pelo menos dois ramos, o baiano e o paulista, tampouco os Serva mandaram notícias de sua atividade no que futuramente seria chamado “o Sul maravilha”.

                Mais de cem anos se passaram, e fui honrado com o convite para participar, na condição de “tataraneto do grande empreendedor”, do evento de comemoração do bicentenário da revista As Variedades ou Estudos de Literatura, criada por Manoel Antonio da Silva Serva, em 1812, um ano após a fundação do Idade d’Ouro do Brazil. Na ocasião, o primeiro número da revista ganhou uma edição fac-similar, patrocinada pelo governo baiano e concebida pelo historiador Luís Guilherme Pontes Tavares, dedicado estudioso da história da imprensa no Estado.

                Ali, as saudações elogiosas ao precursor da imprensa baiana e brasileira incluíram carinhosas referências a seus descendentes, sempre destacando a surpresa da existência atual de um Serva, especialmente sendo ele jornalista, como seu antepassado.

                Foi quando nasceu a ideia deste livro, com a finalidade de contar aos leitores de todo o País a história e as histórias de um empreendedor que, apesar de sua vida relativamente curta, deixou na cultura brasileira marcas importantes e realizações pioneiras; o primeiro jornal particular editado no País e a impressão de dezenas de outros títulos, entre periódicos e livros; a primeira revista da nossa história; o plano da primeira biblioteca pública da Bahia; o projeto da primeira fábrica de papel; a realização da primeira escola de impressão; o lançamento de um livro de autoajuda, a produção das primeiras edições piratas de livros e uma versão precursora das populares fitinhas do Senhor do Bonfim da Bahia – estas, sim, amplamente conhecidas até hoje. Como diz o Hino do Senhor do Bonfim, glória a ti, neste dia de glória...

    1 Tavares, Luís Guilherme Pontes (org.). Apontamentos para a história da imprensa na Bahia, p. 30.

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    Por: Leão Serva

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