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Memórias da Redação

    27.05.13 - Memórias da Redação – A greve dos jornalistas, há 34 anos

    A história desta semana é novamente uma colaboração de Milton Saldanha, que edita o jornal mensal Dance, dedicado à dança de salão, e mantém um blog de crônicas sobre assuntos variados. Como o texto, embora condensado, é extenso (a íntegra pode ser solicitada ao autor), J&Cia optou por publicá-lo em duas –partes.

    A greve dos jornalistas, há 34 anos

    Dia 22 de maio foi o 34º aniversário da greve dos jornalistas de São Paulo, ocorrida em 1979. Tanto tempo depois, o assunto ainda continua tabu nas redações e, por incrível que pareça, ainda divide os velhos jornalistas. Certamente porque, acima de um movimento reivindicatório, a greve teve uma forte conotação ideológica. Vale lembrar que era uma época em que ainda existiam esquerda e direita, conceitos que foram se pulverizando a partir da queda do Leste europeu.

    Os jornalistas formam uma classe curiosa. Alguns ganham bem, mas a maioria sempre ganhou mal. No entanto, a profissão lhes dá acesso a oportunidades que não teriam em outras carreiras. Desde bons almoços no melhores restaurantes, pagos por empresários interessados em operar seus interesses, até viagens internacionais, nos melhores hotéis. Não poucos utilizaram também a profissão como fonte de faturamento paralelo. O suborno vinha na forma charmosa e acima de qualquer suspeita de convidar para proferir palestras. O cara ganhava em duas horas o equivalente a outro salário mensal, ou até mais. Depois passava o resto do ano escrevendo a favor daquele setor, sobretudo na pressão ao governo por renúncias fiscais. O suborno é relevado nas redações. Leva o divertido nome de jabaculê, ou simplesmente jabá, para os íntimos. Que atire a primeira pedra quem resistiu a eles, não importa o valor. Conheci jornalistas, não provindos de famílias ricas, vivendo com um padrão de vida totalmente incompatível com a realidade dos salários praticados no mercado. Então, essa é uma classe curiosa, integrada pelos mais diferentes perfis humanos. E que desfruta de todas as aspirações típicas da classe média alta, o que não é nenhum desdouro, digo isso apenas para mostrar seu modo de ser. E mais: independentemente de suas convicções ou inclinações ideológicas, o jornalista é um ser que assume a bandeira da empresa onde trabalha. Enche a boca para dizer que trabalha em tal jornal, revista, rádio ou tevê de grande audiência. Faz horas extras sem ganhar para isso. Alguns se ofendem com críticas à instituição a que servem. E não poucos veneram seus patrões com fidelidade canina. Até o dia em que levam o solene pontapé na bunda. Mesmo assim nunca aprendem. No próximo emprego já estão novamente puxando o saco do patrão.

    São todos assim? Claro que não. Alguns são apenas mais ou menos assim. Outros, certamente a maioria, são de independência intelectual e dignidade impecáveis. Mas do jabazinho, vamos dizer a verdade, ninguém escapa...

    Agora imaginem o que seja fazer uma greve numa categoria assim. É claro que não pode dar certo, como não deu em 1979. A categoria paulista já tinha feito uma greve antes, em 1961. Existe até uma foto famosa, tomada na frente dos Diários Associados, de um piquete sendo atingido por jatos de água de uma mangueira dos bombeiros. Essa greve foi vitoriosa, mas vale lembrar que os salários eram realmente de fome.

    A greve dos jornalistas de São Paulo durou oito dias (incluindo o final de semana), de 22 a 29 de maio de 1979. No dia 28 o TRT julgou a greve ilegal. A desobediência, nesses casos, submete o sindicato a pesadas multas diárias. O nosso Sindicato é pequeno, não tem como suportar algo assim. O único caso que se conhece na história, de algum organismo sustentando uma greve, foi no Chile, onde a CIA bancou os mais de seis meses da greve dos caminhoneiros, para ferrar com a economia do país, e assim fomentar condições ideais para a derrubada do democraticamente eleito Salvador Allende, em 11 de setembro de 1971.

    Em 1979 eu chefiava a redação, com meia dúzia de repórteres, da Sucursal do ABC do Grupo Estado, então integrado por Estadão, Jornal da Tarde, Agência Estado e Rádio Eldorado. Fiquei lá quatro anos e tinha muito a perder: trabalhava com total liberdade; estava satisfeito com o salário; tinha prestígio na empresa e orgulho do cargo; me dava ao luxo de ter uma sala exclusiva e com telefone direito; escolhia minhas próprias pautas; saia quando bem entendia para as ruas para fazer matérias ou ficava na redação coordenando; estava fisicamente a 45 km das cobras criadas das grandes redações da matriz e sem nenhum superior hierárquico por perto. Enfim, o que mais poderia querer? Resposta: que nunca tivessem inventado aquela greve.

    A inspiração para o movimento, ninguém poderá negar, veio do sindicalismo metalúrgico do ABC, com vários grandes líderes, e que tinha em Lula sua principal estrela. Eles tinham peitado a ditadura em 1978, quebrando um jejum de muitos anos sem greves. Com planejamento e organização impecáveis, a primeira foi uma impressionante greve sem piquetes: os trabalhadores entravam nas fábricas e simplesmente não ligavam as máquinas, permanecendo ao lado de braços cruzados. Eu tinha na minha equipe uma excelente jornalista, a Valdir dos Santos, que roubei do Diário do Grande ABC. Era encarregada da cobertura sindical. Quando a greve começou, primeiro na Scania, foi a única repórter lá dentro, percorrendo a fábrica ao lado do delegado do Trabalho. Ele entrou anunciando aos gritos a prerrogativa do cargo e arrastou a Valdir junto. Naquele dia fizemos cabelo, barba, bigode e depilação, mostrando a qualidade da Sucursal, que já tinha uma tradição de excelentes equipes e chefes, como Enock Sacramento, Dirceu Martins Pio, José Maria Santana. Foi José Marqueiz, repórter da Sucursal, o detentor de um famoso Prêmio Esso. É longa a lista de ótimos jornalistas que lá trabalharam. Pio foi quem me indicou para a Sucursal, ao Raul Martins Bastos, que chefiava a fantástica e inesquecível rede de sucursais e correspondentes, de uma qualidade que o jornalismo brasileiro nunca mais verá.

    Em 1979, os metalúrgicos mudaram a estratégia: a greve passou a ser com piquetes nos portões das fábricas. Agora já esperando, a ditadura, aliada com a Fiesp, montou um forte aparato repressivo. Ocorreram assembleias memoráveis no Estádio de Vila Euclides, uma delas sobrevoada por helicópteros do Exército, com atiradores apontando metralhadoras. O prefeito de São Bernardo, Tito Costa, dava apoio e suporte logístico aos grevistas. A Igreja Católica guardava o Fundo de Greve, estocando mantimentos na casa paroquial da matriz. O arcebispo Dom Claudio Hummes apoiava Lula e fazia o meio de campo nas negociações. Teve a intervenção militar no Sindicato, numa madrugada, e a prisão de Lula, pelo Deops, dirigido por Romeu Tuma. Tudo isso ocupava as manchetes dos jornais e capas das revistas semanais. Lula foi capa da Time e da Newsweek, revistas internacionais. O ABC era o centro de todas as atenções no País.

    Outras categorias poderosas, como os químicos e petroleiros, ou desprovidas de charme, como os motoristas de ônibus, também fizeram suas greves. Todo o sindicalismo brasileiro estava inoculado pelo vírus da greve. A interpretação, naqueles dias, era a de que sindicato bom era o sindicato capaz de fazer uma grande greve. O resto era visto como sindicato pelego e bundão. O Sindicato dos Jornalistas não precisava nem deveria, cometendo um grande erro de avaliação, mas inventou que teria que ter também a sua greve. No fundo, era uma forma de afirmação política da liderança sindical. O grande problema é que um jornal não é como uma fábrica de parafusos...

    Mas, ao contrário do que muita gente fez depois da derrota, não culpo totalmente o então presidente, David de Morais. Culpo apenas parcialmente. Ora, todo mundo era maior, vacinado, consciente dos seus atos. Ele não fez nada sozinho. Mesmo levando em conta que toda assembleia envolve táticas de manipulação. A grande prova é que antes de qualquer votação, nas grandes assembleias metalúrgicas, a gente, com boas fontes, já sabia o que seria decidido. Era raríssimo, quase impossível, a multidão confrontar a posição de suas lideranças. Jamais, por exemplo, ouvi de um palanque um discurso de alguém contra a greve. Esse tipo de democracia era impensável no ABC.

    Entre jornalistas não funciona assim. A gente cobra espaço à opinião, afinal é o que fazemos a vida inteira. E foi o que fiz na primeira assembleia, na Igreja da Consolação, emprestada ao nosso Sindicato, porque seu pequeno auditório não comportaria os cerca de dois mil jornalistas presentes. Já iam começar a votação, praticamente sem discussão, todo mundo claramente intimidado (a mesa havia oferecido encaminhamento contrário e ninguém se inscreveu), quando levantei uma questão de ordem, sob forte tensão. Fui ao microfone e ponderei, sob vaias de radicais, que não se poderia decidir uma greve por aclamação e sem ampla discussão. Aí foi a rebordosa: um monte de gente, finalmente pedindo a palavra, debates pró e contra, incluindo baixarias e até palavrões, inevitáveis nessas horas. Depois do aterrador silêncio inicial, quebrado por minha questão de ordem, a assembleia se transformou numa grande confusão. A mesa teve grande dificuldade para conduzir os trabalhos. O corredor central que divide os bancos da igreja em duas alas foi transformado em fronteira. Solicitou-se que os favoráveis à greve ficassem à esquerda, os contrários à direita. Um nada sutil simbolismo. Nossa ala, a dos contrários, era maciçamente ocupada por pessoal do Estadão, incluindo a turma do Jornal da Tarde. As discussões avançaram a madrugada e ficou célebre a intervenção do jornalista Emir Macedo Nogueira, da Folha, dizendo: “O meu maior medo é ver amanhã nossa greve como manchete dos jornais”. Os patrões e os fura-greve adoraram a deixa e, quando a greve finalmente aconteceu, lá estavam as manchetes. Incluindo, claro, a famosa frase. Era o primeiro passo para desmoralizar a greve dos jornalistas.

    A divisão entre os dois grupos era tão clara que tiveram que contar cada pessoa antes da proclamação da decisão final. Vencemos por reduzida margem. A greve estava rejeitada pela categoria. Ou, como alguns diziam, pelo Estadão. No dia seguinte, na Sucursal, recebi várias ligações telefônicas de jornalistas da matriz, principalmente editores, me cumprimentando pela atuação na assembleia. Mas não foi nada agradável. Esses embates são desgastantes, nos deixam muito expostos. Tem a turma sem argumentos, e covarde, porque não se apresenta para a discussão, só sabe vaiar, escondida na multidão. Radicais de esquerda que não são de nada, na hora H se borram nas calças, como já cansei de ver. E tem o outro radical, de direita, pensando que você é cretino como ele. A única razão que me colocou contra a greve é que tive a percepção de que aquilo era uma aventura juvenil, sem a menor chance de vitória. E que colocaria nossos empregos em risco. Os fatos provaram que eu estava certo. As greves de outras categorias, politizadas e bem organizadas, quase sempre tiveram a minha simpatia e, quando possível, apoio.

    Por: Milton Saldanha

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