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Memórias da Redação

    14.10.13 - Memórias da Redação – O filósofo da redação

    A história de hoje é, então, de Renato Lombardi (relombardi@uol.com.br), ex-Estadão, comentarista para os assuntos de segurança e Justiça da TV Record.

    O filósofo da redação

             O jornal Notícias Populares, fundado por Jean Mellé e bancado pela família do então senador Herbert Levy, começou funcionando na rua do Gazômetro, no bairro paulistano do Brás, num prédio que por alguns anos abrigara uma madereira. A redação era recheada de jornalistas que tempos depois deixariam o NP com destino a Veja, Jornal da Tarde, Folha, Estadão, O Globo. Algumas figuras eram folclóricas, mas a principal foi mesmo o criador do jornal: Itik Koko Melle, que, chegado da Sibéria para trabalhar na editoria de Internacional da Última Hora, adotara o nome de Jean. Com o empastelamento pela ditadura de parte da Última Hora, ele convenceu Levy a bancar o NP, que, no entender dele, iria substituir a UH. Mellé misturava o português com inglês, espanhol, mas sempre se fazia entender.

             Entre os repórteres da editoria de Polícia, chefiada por Ramão Gomes Portão, estava Carlos Caetano Cunha. Magro, óculos redondinhos, sempre de paletó, gravata borboleta, gostava de romancear suas matérias sobre assassinatos, principalmente os passionais. Citava romancistas, poetas em seus textos. No começo até que Mellé elogiou as matérias. Mas depois começou a implicar.

             – Essa moça (moço) tem que dar mais drama para os assuntos –, cobrava Mellé.

             Ramão dizia que iria dar um jeito, mudar a situação, falar com seu subordinado, mas, de uma bondade infinita, não cobrava de Caetano, que vinha da escola de reportagem do Diário da Noite e sua cultura era acima da média da maioria dos repórteres especializados na área policial. Mas as cobranças de Mellé chegaram até Caetano e ele não deixou barato.

             Numa tarde, assim que Mellé subiu as escadas de madeira para a redação e chegou quase sem fôlego, Caetano peitou o diretor.

             – Quero falar com você. Precisamos esclarecer algumas coisas.

             O pessoal parou para ver a conversa. Mellé disse que estava ocupado. Trazia nas mãos – como sempre fazia – recortes de jornais do Rio de Janeiro, principalmente O Dia, com notícias de crimes. E Caetano cravou.

             – Não, meu velho. Você vai me ouvir.

             Segurava uma página do jornal do dia anterior com uma reportagem assinada por ele sobre um assassinato passional. O marido encontrara a mulher com outro num ponto de ônibus e a matara a facadas. É, naquela época 99% dos assassinatos praticados em São Paulo eram como a polícia gostava de registrar: com armas brancas. Facas, facões, peixeiras. Caetano questionou o diretor.

             – Onde errei? O que tem demais que você recrimina nesta matéria?

             E Mellé, surpreso, pegou a página e apontou para o abre que dizia mais ou menos assim: "Ele tinha tantos anos, era moreno, e operário. Ela, morena, tantos anos, enfermeira. Os dois estavam casados havia determinados anos e a traição levou o marido a matar a mulher".

             – O senhor começa todas as reportagens dessa maneira. Não é possível. Tem que mudar.

             Caetano olhou direto para Mellé e disparou.

             – Como você pode me dizer isso se nem português sabe escrever? Como quer mudar minha maneira de escrever se nem português direito sabe falar? Entre na escola, aprenda português e depois venha discutir comigo o que é certo e o que é errado nos meus textos.

             O rosto de Mellé ficou vermelho. Ele olhou para a redação, deu as costas e foi para sua sala. Caetano foi conversar com Ramão. Estava certo de que havia perdido o emprego.

             – Vou para a Central (plantão da Central de Polícia, no Pátio do Colégio, onde tinha uma sala de imprensa) e se ele mandar me demitir você me telefona –, disse. Caetano era plantonista durante a tarde. Eu o rendia no período noturno, das sete da noite a uma da manhã. Naquele dia Ramão reunira todos os setoristas, à exceção de Walter Gato – irmão do também jornalista Nelson Gato, que fez sucesso nos Diários Associados –, porque ele trabalhava de madrugada.

             Ninguém até então tivera coragem de falar assim com Mellé. Todos acreditavam na demissão de Caetano. Passado um bom tempo Mellé mandou chamar Ramão.

             – Diga para a moça (moço) que pode continuar a escrever assim. Precisamos ter um filósofo na redação.

             Caetano continuou a escrever como sempre fazia, mas ficou um bom tempo sem aparecer no Gazômetro.

    Por: Renato Lombardi

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