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Memórias da Redação

    17.12.12 - Memórias da Redação – Ainda sobre Joelmir

    A história desta semana é novamente uma colaboração de Sandro Villar (sandro.villar@hotmail.com), correspondente do Estadão em Presidente Prudente (SP).

    Ainda sobre Joelmir

    Não me lembro mais o ano, mas acho que foi em 1966, ano em que o Brasil entrou bem na Copa do Mundo na Inglaterra. Mas lembro que, no começo de 1966, o narrador esportivo Enio Rodrigues visitou Adamantina para promover o Mundial e, certamente, vender passagens para Londres e outras cidades sedes da Copa. Eu trabalhava na Rádio Brasil e falei com o Enio do meu interesse em me mudar de mala e cuia para São Paulo. Ele desaconselhou, ratificando o que havia dito uma professora minha do ginásio. Até hoje estou sem entender por que o radialista e a professora desaconselharam a minha mudança para São Paulo.

    Mesmo assim, no segundo semestre do citado ano, peguei o trem da Companhia Paulista de Estrada de Ferro e, depois da baldeação em Itirapina, coisa que o Cláudio Amaral e o Gabriel Manzano Filho também fizeram inúmeras vezes, segui para a terra da garoa (naquela época ainda existia garoa). Desembarquei na Estação da Luz com uma mão na frente e a outra também, mas não estou aqui para falar de mim. Fui procurar emprego na Rádio Nove de Julho, que ficava na rua Venceslau Brás, bem no centrão. Como todo mundo está cabeludo de saber – e não careca de saber –, a rádio em questão pertence à Igreja Católica, uma das poucas instituições organizadas do Brasil, assim como a Globo e o Exército.

    A discotecária era uma moça chamada Lucila, que já era – ou viria a ser mais tarde – a mulher do caro e prezado Joelmir Beting. O pai dela era o tesoureiro ou o diretor comercial da rádio. Não me lembro do nome dele, só me lembro que me deram um horário para apresentar um programa vespertino. Com a febre do iê-iê-iê e do twist, o rock estava em baixa, poucas rádios se interessavam por Elvis Presley, Paul Anka e outros ícones do rock. A moçada ouvia os Beatles, os reis do iê-iê-iê, e também Chubby Checker, o rei do twist. Mas eu torcia o nariz para Suas Majestades e seus ritmos, o que é uma ignorância imperdoável até porque a Mídia também vive de modismos.

    Além dos discos de Elvis, eu apresentava os rocks turbulentos de Little Richard e Cliff Richard, indiano naturalizado inglês. Tocar rock “selvagem” numa rádio católica? Os padres que administravam a rádio ficaram uma onça comigo. Tal ousadia era pecado mortal. Era condenação ao fogo do inferno, ameaça que a Igreja, ao contrário do budismo e do espiritismo, parece gostar de fazer aos fiéis. Não sei qual foi a reação do pai da Lucila, futuro sogro do Joelmir. Só sei que eu dancei logo depois. Acho que trabalhei umas três semanas. Por pouco não bati o recorde do Millôr, que ficou apenas cinco dias em um emprego. Não conheci Joelmir Beting nessa época.

    Só viria a conhecê-lo muito tempo depois, acho que em meados dos anos 1990. Fui contratado para ser o mestre de cerimônias de um evento do Grupo Votorantim no Centro de Convenções Rebouças. Joelmir foi contratado para fazer palestra. Eu cheguei por volta das 7h30 e, quando deu coisa de 8h, iniciei o evento. Como é óbvio, Antônio Ermírio de Moraes, o prezado Tonhão, estava lá e, claro, também deu seu recado manifestando confiança no nosso amado Brasil. Também desta vez ele esculhambou a especulação financeira, no que está certíssimo, e enalteceu a produção.

    Depois de apresentar vários palestrantes, chegou a vez de apresentar Joelmir Beting, que compareceu ao centro por volta das 15 horas. Diante de um personagem importante, ícone do jornalismo econômico, eu quis dar, digamos, uma “enfeitada” na apresentação. E parafraseei o bordão dele no Jornal da Globo, “para pensar na cama”. O que tem num auditório? Tem poltrona! E mandei ver: “E agora, para pensar na poltrona, Joelmir Beting”.

    Parece que ele gostou. Depois, brincando, propus a Joelmir ser o seu mestre de cerimônias exclusivo Brasil afora.

    Em tempo: para falar por mais de duas horas, Joelmir recebeu R$ 5 mil, segundo ouvi falar. Mesmo para a época, era um cachê modesto. Ele merecia muito mais. Já o mestre de cerimônias, no caso o papai aqui, recebeu um cheque de R$ 600, salvo engano assinado por Antônio Ermírio. Até que fui bem remunerado, pois, afinal, ganhei seiscentinhos por apenas um dia de trabalho. Acho que o Karlão (Marx) não veria exploração do homem pelo homem em tal remuneração.

    Pioneiro do jornalismo econômico, Joelmir, que, profissionalmente, começou e terminou no rádio, também era um humorista nato. Os bordões “cruz crédito” e “quem não deve não tem” não deixam de ser, até certo ponto, um alerta aos que, como eu, ganham R$ 10 e gastam R$ 12. Aliás, um certo Amador Aguiar, que estava mais para Profissional Aguiar, também disse algo parecido. O Brasil fica mais triste sem Joelmir Beting, o paulista de Tambaú que deixou sua marca no mundo.

    Por: Jornalistas&Cia

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