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Memórias da Redação

    11.06.12 - Memórias da Redação - Bom dia, Obama!

    A história desta semana é uma colaboração de Patrícia Stifelman (patriciastifelman@earthlink.net) ex-MTV e TV Cultura, hoje residente em Nova York, atravessando um sabático dedicado à maternidade. Esta é uma versão mais detalhada da história que ela já relatara ao blog que a correspondente da Folha Verena Fornetti mantém a partir da cidade.

    Bom dia, Obama!

    Depois de trabalhar muitos anos em marketing e vendas em editoras acadêmicas como a Cambridge University Press e International Thomson (atual Reuters), me formei em Jornalismo. Trabalhei na MTV e na TV Cultura e fiz vários frilas para revistas e produtoras de tevê, mas não tinha um emprego fixo. Então vim para Nova York em junho de 2008, para visitar meu irmão e passar um mês de férias.

    Conheci aqui o economista Nouriel Roubini, que precisava de uma jornalista para um projeto que ele tinha no Brasil. Decidi então ficar na cidade. Fiz um curso de telejornalismo enquanto colaborava com produtoras de cinema, revistas e emissoras no Brasil.

    Conheci meu marido (no cinema), um investidor americano, e agora tenho dois filhos, um de 15 meses e uma de dois meses, por isso não estou trabalhando e sou mãe em Manhattan.

    Algumas semanas antes da minha menina nascer, recebemos uma carta do condomínio dizendo que o presidente Obama visitaria o prédio para um evento de captação de recursos. Ele iria à casa de um advogado democrata. Ficamos superempolgados. Não acreditava que Obama viria ao meu prédio.

    Era sexta-feira, oito da noite, eu de pijama, o zelador veio à minha casa, com três caras imensos e uma mulher, muito bem vestidos, dizendo que aqueles eram agentes do Serviço Secreto que queriam conversar comigo e meu marido. Disseram: “O presidente vem aqui, ficaremos a semana inteira verificando o prédio e como tem perigo de alguém deixar uma bomba queríamos saber se vocês se incomodam de revistarmos o apartamento e trazermos os cachorros no dia da visita”. Disseram que não éramos obrigados, mas que a verificação seria a opção mais segura para todos.

    Eu disse que não tinha problema, mas que queria muito ver o Obama, já que meu apartamento fica no primeiro andar, ao lado do elevador. Eles disseram que isso não era algo que eles poderiam decidir, que teriam que falar com a Casa Branca, mas que iriam tentar. Eu fiz uma pressão, já que estava com um barrigão de nove meses. Tentei manipular um pouco, disse que não acreditava que a White House não liberaria o presidente dos Estados Unidos de passar na porta da minha casa, uma mulher grávida de nove meses, praticamente parindo.  Discutimos a questão de estarmos representando tão bem a sociedade americana: meu marido é de Chicago, terra eleitoral do Obama, eu sou brasileira, meus vizinhos são gays e minha empregada é da Guatemala.

    Como eles haviam pedido que não comentássemos com ninguém, eu não disse nada à minha empregada. Mas ela começou a ver uma movimentação estranha no prédio e se sentiu um pouco perseguida. Quando perguntou o que estava acontecendo, eu respondi que teríamos uma visita importante. Ela disse, brincando: “Ah, o presidente vem aqui?”, como se fosse a coisa mais impossível do mundo. E era ele mesmo. Ela disse que contou ao namorado, que até hoje não acreditou...

    Vieram agentes no sábado, no domingo, na segunda… Era como nos filmes. Gente falando ao microfone, fotografando, entrando e saindo no prédio em bandos de 15 pessoas... Eu disse ao agente: “Moço, eu preciso ver o presidente”. Ele respondeu: “Não garanto nada”. Mas acrescentou: “Olha, se eu conseguir a permissão para vocês abrirem a porta, não podem tirar fotos”.

    No dia da tão esperada visita, por volta do meio-dia, dois homens com cachorros mestiços de Labrador com Pastor Alemão entraram no apartamento. Abriram tudo, olharam tudo, perguntaram tudo e saíram. A babá/empregada estava praticamente escondida no armário... Naquela manhã, montaram uma tenda branca em frente ao prédio. Fecharam ao trânsito de carros a minha rua e as vizinhas. Eram uns 200 seguranças, com armas penduradas nas pernas. Colocaram detector de metal na porta do prédio e havia muitas armas circulando.

    Encontrei de novo o agente que tinha ido à minha casa. Perguntei: “E aí, moço?”. Ele disse que não daria para encontrar o presidente porque queriam todas as portas do prédio fechadas. Eu insisti. “Estou grávida de nove meses. Que risco eu represento?” Ele me respondeu: “Veja, eu não posso impedir você de abrir a sua porta”, referindo-se à passagem de Obama pelo lobby do prédio, próximo ao meu apartamento. “Mas e se eu abro a porta e alguém me dá um tiro?”, perguntei. Ele disse: “Não faça nada de supetão”.

    Pouco antes de Obama chegar eu ficava espiando a movimentação pela fresta da porta. Escutei o chefe dizendo a um segurança que, nessa hora, um terceiro segurança deveria descer para o subsolo, então fiquei espiando o Serviço Secreto para ouvir a deixa. Meus vizinhos do sexto andar, um casal, desceram e ficamos todos esperando no hall de entrada da casa, porque sabíamos que tudo aconteceria em menos de um minuto.

    Quando percebi que ele estava chegando, abri a porta do meu apartamento devagar. Meu vizinho decidiu deixar a câmera à mão, mesmo lembrando da instrução que o segurança havia dado dias antes. Estava com meu bebê no colo, meu marido, a babá e um casal de vizinhos. O presidente entrou no prédio e veio na minha direção: “Oi”, ele disse e sorriu.

    Fiquei nervosa. Obama perguntou: “What’s your name?”. Eu respondi: “Patrícia”. Obama, bem-humorado, repetiu: “What’s YOUR name?” para o bebê, que ficava tentando puxar a gravata dele. Eu fiquei tão nervosa que não percebi que ele estava falando com o bebê, cujo nome eu tinha esquecido… Meu marido teve que responder porque eu fiquei muda, tão nervosa que não conseguia dizer nem a coisa mais obvia. Meu vizinho também ficou muito emocionado. Isso ficou nítido nas várias fotos tremidas que registrou do rápido encontro.

    Meu marido disse que era de Chicago e amigo de infância do marido de uma jornalista que havia trabalhado com Obama no passado, Laura Washington. Obama disse: "Ah, you know Mike?”. Obama deu a mão a todo mundo, pediu desculpas por invadir o prédio e subiu para ir ao evento. Muito simples, direto, simpático e charmoso.

    Por: Patrícia Stifelman
    Foto: Divulgação

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