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Memórias da Redação

    07.01.13 - Memórias da Redação – Bonequinhas cunhantãs

    Voltamos a pedir que os leitores enviem colaborações para este espaço, pois temos apenas mais uma para publicar.

    Abrimos 2013 com mais uma primorosa colaboração de Plínio Vicente da Silva (plinio.vsilva@hotmail.com), diretamente de Roraima.

    Bonequinhas cunhantãs

    Ele era ainda quase um curumim, mas já indo para a puberdade quando o conheci. Herenchewe Kohoshitari. Esse o nome do menino de cabelos negros escorridos, franjinha na testa, que encontrei na sede da Funai, em Boa Vista, em meados dos anos 80 do século passado. Como soube nem me lembro, pois os nomes de índios amalocados só quem conhece mesmo são os parentes. Nome de branco eles ganham quando algum padre ou missionário chega à aldeia, subverte a cultura e os costumes e batiza os “pagãos”.

    Depois da orfandade, adotado por um engenheiro da Eletronorte que trabalhou na construção da hidrelétrica de Balbina, Herenchewe foi morar em Brasília. Reencontrei-o muitos anos depois, já homem feito, casado, pai de duas cunhantãs que mais pareciam bonequinhas orientais. Voltara para a floresta e então fui saber que recebera, com o batismo, um nome cristão: Marcelo. Sobrenome? Ianomâmi, como todos os habitantes das aldeias que reúnem essa etnia. Foi assim que tirou documentos, abriu conta em banco, foi trabalhar na Funai e acabou chefiando o posto indígena do Homoxi, no noroeste de Roraima, fronteira com a Venezuela.

    Marcelo sempre me visitava quando vinha a Boa Vista receber o salário. Relatava-me os acontecimentos, me pedia ajuda para poder encaminhar a venda de artesanatos feitos na aldeia – arcos, flechas, bordunas, esculturas etc. – e me fazia de seu motorista particular para as compras na cidade.

    Às vezes trazia Florinda, sua mulher, da etnia taurepangue, e as duas filhas, Vitória e Tereza, homenagem à mãe e irmã adotivas que deixara em Brasília. Nesses momentos, que às vezes duravam o dia inteiro, Salete, mãe de três rapazes, virava avó babona de duas indiazinhas, as filhas que não tivera. Quando levávamos a família ao aeroporto e víamos o táxi aéreo desaparecer entre as nuvens, sentíamos um enorme vazio em nossos corações. 

    Marcelo não gostava de falar do passado, dos pais e irmãos que morreram vitimados pela gripe transmitida por garimpeiros. Por isso mesmo, só muito depois é que me contou o significado de seus nomes indígenas e porque ele os recebeu.

    O primeiro lhe foi dado pela mãe. No momento em que o dava à luz, sozinha, no meio da floresta, viu uma minhoca se contorcendo sobre a terra revirada na cova que cavara com as mãos para enterrar a placenta. Seguindo o costume de dar ao bebê o nome de algum componente da natureza – rio, animal, árvore, fruto etc. –, chamou-o de Herenchewe, que no dialeto falado pelos ianomâmi da aldeia parimitheri quer dizer “minhoca nervosa”; o segundo ele ganhou no dia seguinte, quando foi apresentado ao pai, que acabara de voltar de uma caçada trazendo às costas uma pequena capivara. E então ele o chamou de Kohoshitari, ou “capivara ligeira”. Por quê? Porque a capivara que perseguira durante uma longa distância, até poder flechá-la, era muito rápida.

    Estávamos em meio à “guerra” entre garimpeiros e ianomâmi, uma tragédia com milhares de mortos – quantos foram ninguém jamais saberá ao certo – e que deixou muitas sequelas nos dois lados. Certo dia, um jornalista da Veja, que viera a Boa Vista cobrir o conflito, me pediu ajuda. Queria entrevistar um índio ianomâmi que falasse português. Indiquei Marcelo, que estava na cidade. Seu depoimento deu uma Página Amarela e ganhou repercussão no Brasil e no exterior.

    O que mais me entristece até hoje é saber que muitos jornalistas – brasileiros e estrangeiros –, que aqui estiveram naquela época e que conheceram Marcelo, fazendo dele uma fonte segura e confiável, jamais se preocuparam com seu futuro. Certamente nem sabem que ele morreu de pneumonia. Nem que, conforme a ritual fúnebre de seu povo, teve o corpo embrulhado em trapos e em folhas de bananeira e foi depositado num jirau erguido na floresta, em um canto qualquer do imenso território do extremo norte da Amazônia.

    Só mesmo um ano depois é que foi receber as honras fúnebres. Como manda o costume ianomâmi, teve suas tralhas destruídas e sua ossada pilada, transformada em pó. Depois, misturada ao mingau de pacová, que os índios chamam de “sopa de parente”, foi distribuída aos moradores da maloca numa cerimônia em que cada um come um pouco para poder receber um pedaço da alma daquele que fez a viagem ao encontro de seus ancestrais.

    Eu e Salete vimos Florinda e as filhas pela última vez quando ela veio a Boa Vista regularizar os papeis da pensão e deixou as meninas aqui em casa. Depois, desapareceram, jamais voltaram e a última notícia que tivemos foi de que ela se casara de novo, com um pemon, e morava com o marido e as filhas numa aldeia dentro da reserva indígena do parque Canaima, na Venezuela.

    Passados tantos anos, o vazio e a tristeza ainda teimam em tomar conta de nossas almas. Que seguem ocupadas por uma profunda saudade dos tempos em que as duas cunhantãs, bonequinhas orientais, traziam à nossa casa, naqueles anos sombrios, a alegria de seus sorrisos e a inocência de seus olhinhos negros, que mais pareciam dois frutinhos de açaí.

    Por: Jornalistas&Cia
    Foto: Reprodução

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