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Memórias da Redação

    03.12.12 - Memórias da Redação – Eu, a “prima”, o terno e a valeta

    A história desta semana vem do fiel colaborador Plínio Vicente da Silva (plinio.vsilva@hotmail.com), ex-Estadão, hoje vivendo em Roraima.


    Eu, a “prima”, o terno e a valeta

    Quando leio qualquer coisa escrita pelo Moa (é assim que chamo meu preclaro amigo Moacyr José Castro Dias, com quem tive a honra de dividir a chefia de Reportagem do Estadão nos anos 1980), viajo de volta ao passado na garupa das muitas lembranças dos tempos em que vivi na Ribeirão Preto da minha infância e juventude. É bem verdade que eu só ia à cidade de vez em quando ou por precisão, pois morava em Guatapará, um dos seus distritos, localizado a pouco mais de 40 quilômetros, no vale do médio rio Mogi Guaçu.

    Era 1959 quando, aos 17 anos, consegui meu primeiro emprego como jornaleiro na banca da estação da Mogiana. À noite, lá pelas 10 horas, virava plantonista de Polícia, redigindo pequenas notas para a página 8 do O Diário.

    A banca era do pai do jornalista Marcial Fernandes, que escrevia periodicamente para o diário da família Romano e fora diretor do grupo escolar em que me graduara no quarto ano do curso primário. Sim, porque naqueles tempos formatura no ensino básico, que tinha uma alta qualidade, era como se fosse graduação. A coisa era tão séria que depois do 4º. ano a gente tinha que fazer admissão, uma espécie de vestibular, para entrar no ginasial.

    Marcial viu em mim algum lampejo de jornalista e me levou para morar com sua família na Rua Barão de Cotegipe, Vila Tibério, nas proximidades do antigo campo do Botafogo. Para chegar ao jornal, tinha que descer a Rua Coronel Luiz da Cunha e cruzar a praça da estação e o córrego Ribeirão Preto. Depois, passava ao lado das obras de reforma do mercado municipal, que fora parcialmente destruído por um incêndio um ano antes, e subia a Rua São Sebastião até a Américo Brasiliense. Fazia isso de segunda a sábado, um longo trecho que, por falta de grana para a passagem de ônibus, eu percorria a pé, batucando minha bengala pelas calçadas da capital do café.

    Certa noite, depois de receber o pagamento do seu Fernandes e cobrir meu plantão em O Diário, resolvi ir ao Pinguim. Cheguei, sentei-me, pedi um chope e o garçom não me serviu. Desconfiou que eu era “de menor”. Embora já tivesse burlado o porteiro do cinema do bairro para assistir Manina, a moça sem véu (Manina, la fille sans voile, 1952), com Brigitte Bardot, “proibidaço” para a turma sub-18, confessei que era e então me contentei com uma garrafa de Cotuba. Ainda que passasse da hora para gente da minha idade estar na rua, ali fiquei, fazendo companhia aos marmanjos que, para minha inveja, iam repetindo uma caneca atrás da outra.

    Já de madrugada, mais parecendo um fantasma vagando pelas ruas desertas, vestindo um belíssimo terno de linho branco que ganhara de uma tia, desci a General Osório, dobrei na esquina do Hotel Brasil e em vez de ir para casa decidi passar pelo mercado para ver as “primas”. Cheguei e comecei a contornar a construção quando dei de frente com uma delas, de uns 40 anos, roupa espalhafatosa, maquiagem sobrando no rosto já amarfanhado como o linho do meu terno. Parou, parei e nos deparamos por um momento, olhos nos olhos brilhando à luz do poste. Ela abriu um sorriso malicioso e com uma voz doce e serena me convidou. Disse-lhe que não tinha dinheiro e ela, por verdade ou galhofa, respondeu que queria apenas minha companhia. Afinal, eu tinha só 17 anos.

    Deu-me um abraço, me tomou pelo braço e me levou para um canto escuro, num vão do prédio ainda inacabado. O que nem ela e nem eu percebemos era que entre a rua e o vão havia uma valeta e quando demos conta estávamos os dois enterrados até à cintura na lama de terra massapé. A saia dela, rodada, feito paraquedas, boiando como uma vitória-régia; meu terno... bem, restara apenas o espectro moribundo do que antes fora um belo terno.

    O vigia da obra ouviu nossos gritos por socorro e veio nos acudir. Amarrou cordas em volta de nossas cinturas e nos içou. Enquanto procurava minha bengala enterrada no lamaçal, a mulher sumiu pros lados da estação. Quando cheguei em casa, dona Eugênia acordou e veio me ver. Eu vestia metade branco, metade marrom escuro. Não houve sabão que limpasse nem corante Guarany que desse jeito de devolver, pelo menos em parte, a cor imaculada do meu belo terno de linho branco amarfanhado...

    Por: Plínio Vicente da Silva
    Foto: Divulgação

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