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Memórias da Redação

    12.11.12 - Memórias da Redação - A excomunhão

    A história desta semana é novamente uma colaboração de Plínio Vicente da Silva (plinio.vsilva@hotmail.com), ex-Estadão, hoje vivendo em Roraima.

    A excomunhão

    Lá pelo final dos anos 50 do século passado, depois de um período internado no Pavilhão Fernandinho da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, voltei para a casa de meus pais. Na tranquilidade de uma pequena fazenda nas cercanias da vila de Guatapará, às margens do rio Mogi Guaçu, passei a me recuperar de algumas cirurgias ortopédicas para a correção de sequelas deixadas pela polio.

    Nessa quadra da minha vida, aproveitando o tempo de internação, já fizera a primeira comunhão. Então, junto com uma enorme esperança de voltar a andar, levei para casa o aprendizado do Catecismo católico, ensinado por padres e freiras, tempo em que ele era ainda ministrado quase todo em latim.

    Logo que me acomodei, minha mãe, já sabendo que eu tinha razoável conhecimento dos sacramentos católicos, me intimou a rezar uma novena para Nossa Senhora Aparecida. Estava em débito com a santa de sua devoção por ter recebido a graça de ver curado um panarício nos dedos das duas mãos.

    Mais tarde, bem mais tarde, quando o problema se repetiu e parecia não ter solução, veio a saber por um médico, que acabou por livrá-la da enfermidade, que tudo fora consequência do uso continuado de sabão em barra, caseiro, que dona Alice fabricava com sebo bovino e uma grande quantidade de soda cáustica.

    Minha mãe lavava todos os dias uma enorme quantidade de roupa das famílias mais remediadas da vila. O dinheiro não era lá grande coisa, mas esse era o jeito de ela ajudar na minguada renda doméstica, quase toda sustentada pelas mãos calejadas de um heroico e incansável roceiro caipira, meu pai.

    Essa incursão pelas novenas, puxando o terço e cantando o Kyrie eleison; Christe eleison; Kyrie eleison, acabou mudando minha vida. Não foi preciso mais que três noites de oração para eu ganhar o apelido de padre. De repente choviam convites para que minha mãe mandasse o filho beato para as casas das suas clientes a fim de ministrar a prática da fé católica. Foi quando deixei-me levar pelo inebriamento e a popularidade me empolgou, me subiu à cabeça, pois era algo incomum um moleque de 10 anos transformar-se assim de repente num líder religioso.

    A ebulição dos acontecimentos me levou de tal forma a uma posição de respeito e credibilidade que pouco tempo depois eu já comandava todas as novenas da vila. Requisitado diariamente para rezar o terço, atendia não só as famílias da área urbana como também aquelas que viviam nas fazendas.

    O sucesso foi tamanho que não me contive e fui além da mera função de rezador. Passei a ministrar os sacramentos do batismo, casamento, crisma e até extrema-unção! Eu era visto como um fenômeno, pois abusava das palavras em latim e enrolava todo mundo com frases como Gloria in excelsis Deo, dominus vobiscum, omnipotens, habeas misericordiam nobiscum, ignoscas nobis peccata nostra et conducas nos ad vitam aeternam...

    Terminada a construção da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, o bispado de Ribeirão Preto mandou para Guatapará o padre Alfredo Cestari, seu primeiro pároco. Qual não foi seu espanto, que depois virou desespero, quando soube das minhas estripulias como falso padre. Não deu outra: teve reparar aos olhos da Igreja toda a m... que eu fizera.

    Certo dia ele apareceu lá em casa e comunicou a dona Alice a decisão de pedir ao bispo minha excomunhão, tamanha a gravidade dos atos que eu praticara. Minha mãe chorou, pediu perdão, disse que eu me emendara e que estava agora em Ribeirão Preto, trabalhando como jornaleiro e aprendiz de jornalista. E que uma excomunhão acabaria com qualquer chance de eu conseguir alguma coisa na vida. Padre Alfredo não arredou pé. Manteve sua decisão, que seria levada ao bispo em carta e no Crisma, marcado para três meses depois, certamente o chefe da diocese anunciaria o meu castigo: expulsão das fileiras da Igreja Católica Apostólica Romana.

    Num final de semana de folga fui visitar minha família e minha mãe. Fula e colérica, só faltou chicotear-me ao informar sobre a decisão do padre. Não levei muito a sério, cheguei mesmo a zoar com

    Por: Plínio Vicente da Silva
    Foto: Divulgação - Facebook

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