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Memórias da Redação

    22.10.12 - Memórias da Redação - Furo com direito a vinho

    Publicamos aqui o quarto e último dos textos de Nora Gonzalez sobre Matías Molina, extraídos do livro Matías M. – O ofício da informação.

    Ex-editor-chefe da Gazeta Mercantil, Molina completou 75 anos no final de julho e, para homenageá-lo, seu filho caçula e também jornalista Maurício Martínez fez as vezes de editor e convidou no ano passado 28 profissionais que conviveram com o pai em algum momento de sua vida a escrever um capítulo sobre como era o chefe.

    Nora (noragonzalez@fico.com), PR Manager Latin America da Fico, está entre esses autores. Ela fez algumas contextualizações para a republicação. Os títulos são de J&Cia.

    Furo com direito a vinho

    Lembro que no começo dos anos 1990 fui a Assunção para cobrir reuniões do Mercosul. Sim, naquela época aquilo rendia matéria. Dava um trabalho cão, pois tínhamos que escrever à máquina (a Gazeta Mercantil só comprou computadores em 1993 ou 1994 e até hoje acho que já estavam ultrapassados na hora em que foram instalados) e mandar o texto por fax.

    Depois de um recorde histórico de três primeiras páginas, com direito a manchete e dobra, no quarto dia estava exausta, mas tinha em mãos uma matéria muito, muito boa. Junto com um grupo de colegas, fazíamos plantão no longínquo Banco Central do Paraguai, sem acesso a café, água, comida, nada. Guantánamo deve ser melhor do que era nosso confinamento. Enfim, adotei a tática de emboscar as fontes na porta do banheiro. Sempre funcionou para mim. O sujeito está apressado, quer se livrar de você, não consegue pensar direito. Só tinha eu naquele lugar, digamos, insólito. E não é que consegui uma ótima dica?. Mas, como confirmar? Quando acabou a reunião, no meio da tarde, todos os coleguinhas saíram correndo atrás das fontes. Eu não. Entrei no salão de reuniões onde já estava uma colega de um jornal estrangeiro e encontrei numa das lixeiras, um papel rascunhado. Era a confirmação da informação que eu tivera antes. Domingo Cavallo, então todo-poderoso ministro da Economia da Argentina, havia proposto que o Brasil adotasse uma faixa de flutuação para o dólar – e no papel estava o cálculo sugerido, de próprio punho. Bingo! Só a Gazeta e outro jornal publicaram a notícia. Me acabei de escrever, pois a fórmula era complicada e minha tia-avó não a entenderia. Parênteses: jamais em tantos anos deixei de seguir a premissa aprendida nos meus primeiros dias de Gazeta Mercantil, sob o comando de Matías Molina: “Escreva claro. Sua tia-avó tem que ser capaz de entender” e “Nunca subestime a inteligência do leitor, mas sim seu conhecimento dos fatos. Explique em que contexto as coisas acontecem, pois ele pode não saber, mas não pense que o leitor é burro”. Voltando ao texto: no final, ficou compreensível. Mandei o fax e fui para o hotel. Eram 10 horas da noite; desde o café da manhã que não comia nem bebia nada e o calor etíope de Assunção havia me deixado com aspecto de berbere depois de vagar pelo deserto por uma semana.

    Liguei para o jornal para saber se o fax havia chegado legível e me disseram que o haviam entregue ao Molina, mas que ele havia descido para tomar café. Esperei mais 30 minutos e liguei novamente. Ele não me atendeu, mas mandou dizer que eu podia ir dormir. Assim, sem mais nem menos. Nem me pediu para reescrever algo, não perguntou nada. Bem, pensei, ele derrubou minha matéria da primeira página. Não era possível que ele não questionasse nada, não pedisse uma complementação. Nada. Só podia ter derrubado a matéria. No dia seguinte, lá estava eu na banca de jornais depois do almoço à espera da Gazeta e qual não foi minha surpresa ao encontrar meu texto na primeira página sem absolutamente nenhuma alteração. Levei uns cinco minutos para acreditar e somente quando um colega uruguaio me deu os parabéns pelo furo é que deixei de crer que havia alucinado com o calor.

    Naquele dia, mandei a matéria protocolar de encerramento dos encontros. Correta, mas sem nada tão especial. Mesmo assim, o Molina me ligou e me disse para ir ao melhor restaurante de Assunção e pedir a melhor comida que tivesse. E com direito a vinho – por conta dele, o jornal tinha uma política de não pagar bebida alcoólica. Mas naquele dia eu podia tudo.

    Por: Fernando Soares
    Foto: Divulgação

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