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Memórias da Redação

    08.10.12 - Memórias da Redação - Leão da montanha vs. Venezuela na Opep

    Publicamos hoje o segundo de quatro textos de Nora Gonzalez sobre Matías Molina, extraídos do livro Matías M. – O ofício da informação.

    Ex-editor-chefe da Gazeta Mercantil, Molina completou 75 anos no final de julho e, para homenageá-lo, seu filho caçula e também jornalista Maurício Martínez fez as vezes de editor e convidou no ano passado 28 profissionais que conviveram com o pai em algum momento de sua vida a escrever um capítulo sobre como era o chefe.

    Nora (noragonzalez@fico.com), PR Manager Latin America da Fico, está entre esses autores. Ela fez algumas contextualizações para a republicação. Os títulos são de J&Cia.

    Leão da montanha vs. Venezuela na Opep

    Trabalhar na Gazeta Mercantil, e especialmente sob o comando de Matías Molina, tinha várias questões de honra. Verdadeiro código do que fazer e, especialmente, do que não fazer. Concisão era fundamental e lembro até hoje de uma frase que o Molina usava sempre que revisava um texto: “Pense que você está escrevendo para sua tia-avó. E ela tem de ser capaz de entender”. A regra valia para tudo. Desde algo trivial até planos econômicos, como o Collor, Sarney, confisco de dinheiro, tudo. E, por incrível que pareça, ele provava que isso era possível todos os dias. A Gazeta era um jornal de Economia, claro, destinado a um público bem informado, exigente, mas tinha que manter a clareza e a concisão em tudo. Mesmo que o assunto fosse tão empolgante quanto a redução da taxa Selic ou a expansão da base monetária. Para escrever mais de 40 linhas, só com autorização do “tchêfe”, como o chamávamos (não na cara dele, claro, que ninguém era louco), assim, como sotaque mezzo ibérico mezzo brasileiro. E poucos tinham coragem de pedir mais espaço e muitos menos ainda o obtinham. Não sei se alguma das minhas tias-avós teria entendido algo do que eu escrevi durante tantos anos – até porque nenhuma delas falava português –, mas esse princípio sempre me pautou e durante o tempo que dei aula sempre transmiti isso aos meus alunos. Até hoje faço isso e me policio até na hora de escrever um e-mail que seja.

    Além da questão do custo do papel, na época uns US$ 700 a tonelada, tinha o tempo do leitor. A Gazeta sempre foi – e todos nós sabíamos disso – uma leitura complementar. Ninguém assinava apenas a Gazeta. Era ela e a Folha de S.Paulo ou O Estadão ou, nos bons tempos, o Jornal do Brasil. Em teoria, o leitor poderia prescindir de nós. Na prática, o Molina provou que não.

    Mas trabalhar com o “tchêfe” era como estar numa montanha russa ou andar de buggy nas dunas de Cumbuco, sempre com fortes emoções. A questão do idioma era até folclórica. Era comum os recém-contratados saírem da sala dele sem ter certeza de se tinham entendido direito o que ele queria e depois checavam com os mais antigos. Mesmo eu, que tenho o espanhol como idioma primeiro e nativo e o português como segundo, com toda fluência e sem sotaque, saí da minha primeira entrevista com o Molina me perguntando como faria para trabalhar com ele se não entendia patavina do que ele dizia, em nenhum dos dois idiomas... Mas essa era a parte engraçada, porém fácil de resolver. Em pouco tempo se entendia perfeitamente. Lidar com as cobranças era mil vezes mais difícil.

    Nada passava despercebido pelo crivo do Molina. Ele chegava por volta das 10 da manhã já tendo lido todos os jornais e em 15 minutos começava a chamar editor por editor. Claro que muitos arrumavam entrevistas ou almoços e mandavam os sub para o cadafalso. Mas essa é outra história. Ao entrar na sala dele, a Gazeta estava aberta na página da editoria de cada um, com marcações em vermelho. Claro que isso não era para todos nem todos os dias, se não significaria que o jornal publicava um monte de bobagens, mas quando havia uma, lá estava ela, pulando para fora da página como se estivesse em 3D. E não adiantava errar pequeninho. Ele via. Uma das poucas (ufa!) vezes que fui chamada foi por um erro numa coluna de 134 linhas em corpo 6 que publicávamos diariamente sobre petróleo. Além de fechar a página, eu mesma a escrevia .

    Na edição daquele fatídico dia minhas (aí sim) mal traçadas linhas estavam lá, para qualquer um ver. Eu escrevera que a Venezuela não fazia parte da Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Logo a Venezuela, que eu sabia que era sócia-fundadora. Por que escrevi isso? Não faço a menor ideia. Mas estava lá, escondida em uma letra minúscula, sem negrito, sem separação por título, nadinha que a destacasse, mas ao alcance dos olhos do editor-chefe. Para piorar, nesse interim o embaixador da Venezuela mandou um fax (sim, os tempos eram esses) questionando a incorreção. Como eu não podia fazer como o leão da montanha e fugir pela direita, encarei o Molina antes que ele falasse muito. Melhor era ele não se empolgar com as reclamações e enfrentar as consequências de uma vez por todas. A culpa é minha, não sei porque escrevi isso, não tenho a menor desculpa, sempre soube que a Venezuela era sócia-fundadora da Opep, vou fazer uma errata e ligar para o embaixador da Venezuela e prometo que nunca mais vai acontecer. Assim, de supetão, para não dar margem a outra possível bronca ou a que essa mesma se prolongasse numa agonia interminável. Nem respirei para dizer tudo de uma vez. “OK”, disse ele laconicamente. Empolgada pela ausência de uma verdadeira bronca, abusei do momento e disse: “Mas, Molina, veja por outro lado. Tem duas coisas positivas: nós sempre tivemos problemas de distribuição e se às 10h da manhã o embaixador já leu a matéria, é porque o jornal chegou cedo em Brasília. E tem mais: o embaixador lê nossa coluna sobre petróleo. Eba!”. Ele esboçou um meio sorriso e saí de fininho rapidamente saboreando meu grande momento. Memorável.

    É claro que imediatamente fiz tudo aquilo que disse que faria e ao chegar em casa escrevi num caderno cem vezes: ”A Venezuela é sócia-fundadora da Opep. A Venezuela  é sócia fundadora da Opep. A Venezuela é sócia fundadora da Opep”.

    Por: Nora Gonzalez

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