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Memórias da Redação

    04.06.12 - Memórias da Redação - Saudade de mim

    Mais uma vez, Plínio Vicente da Silva (plinio.vsilva@hotmail.com), que fez carreira no Estadão e desde 1984 vive em Roraima, nos brinda com um belo texto.

    Saudade de mim

    Ao acordar hoje, 29 de abril, completando 70 anos de uma longa existência, dei-me o privilégio de me entregar por mais um tempo ao aconchego das cobertas. Um pouco também pela indolência provocada pela chuva que caía mansa, transformando as goteiras que desciam das telhas num instrumento de percussão, ressoando batuques ritmados sobre os vasos de plantas da minha mulher.

    Enquanto os papagaios faziam explodir gritos onomatopaicos na mangueira bem ao lado do meu quarto, meus olhos, fixados no forro de PVC, atravessaram a barreira branca e encontraram do outro lado um horizonte em que pude ver desfilando um pouco do meu passado. Do recente ao mais longínquo.

    Foi quando senti saudade de mim. Pelo muito do que vivi e que aqui me permito relembrar algumas passagens. Escolhi algumas poucas, mas todas com ingredientes que me ligaram, de alguma forma, à profissão que, sem qualquer outro ganho, a não ser meu salário, me permitiu construir um futuro, criar uma família e educar os filhos, fazer dois deles doutores com o meu “paitrocinio”, um aqui e outro em terras de Espanha. Não lhes deixarei como herança bens materiais, além de uma casa modesta e um carro usado. Mas tenho orgulho por vê-los, como homens feitos, seguindo os exemplos que lhes pude legar, todos assentados em virtudes como a preservação da dignidade, a pregação intransigente da retidão de caráter, a defesa incondicional da honestidade e a prática permanente de valores éticos.

    Sei que este espaço é reservado a memórias dos tempos em que vivemos nas redações. Mas hoje me reservo o direito de escrever estas linhas para falar da saudade que sinto do tempo que passou. Afinal, já se vão 70 anos e, como disse Mário de Andrade, nessa idade eu tenho muito mais passado do que poderei ter futuro. Todavia, ainda quero e espero viver o suficiente para, enquanto me aceitarem, contar histórias, memórias que aos poucos tenho registrado neste J&Cia.

    Minha saudade começa lá longe, bem longe, no tempo e no espaço, na pequena vila de Guatapará, às margens do rio Moji Guaçu, região de Ribeirão Preto. Eu era um molequinho franzino, deformado pela polio, que andava feito um sapo com as duas pernas em cima do pescoço. Mas isso não me impedia de todos os dias, menos às segundas-feiras, ir comprar o jornal para o meu pai, missão que eu cumpria com muita seriedade para tão pouca idade.

    Para eu poder me locomover ganhei uma charretezinha de madeira, com rodas de bicicleta, puxada por um bodezinho preto, de nome Capeta. Assim, quando dava 2 da tarde eu percorria dois quilômetros por uma estrada de terra e ficava na esplanada à espera do comboio e do jornaleiro, que chegavam à estação sempre por volta das 2 e 40. O ritual era sempre o mesmo: Faustino – esse era o nome dele – descia do trem, entregava-me o Estadão, recebia as moedas e desaparecia vagão adentro. Não sem antes recomendar um abraço aos meus pais. Ele era meu primo, filho de tia Matilda, irmã mais velha de minha mãe, como ela nascida em Duisburg.

    Era um ofício que me dava satisfação ainda maior quando, no final da tarde, meu pai se sentava na escada da frente da nossa casa, numa pequena fazenda onde era empregado, e abria o jornal. À medida que, com sua voz claudicante de pouco saber do oficio da leitura, recitava em voz alta cada manchete e cada notícia, eu também ia lendo o diário. Jamais me esqueci das suas palavras, conselho que me segue até hoje e que procuro transmitir a todos os jovens estudantes de Comunicação: quem quiser aprender a escrever tem primeiro que aprender a ler. Foi assim, lá pelos nove anos, que decidi: aprenderia a ler, aprenderia a escrever e um dia seria jornalista do Estadão. E fui...

    Tenho saudade de mim quando fiz minha primeira reportagem, aos 13 anos, transmitindo por telefone um texto rascunhado numa folha de caderno. A um desconhecido do outro lado da linha, na redação de O Diário de Ribeirão Preto, contei, com a voz embargada pelo pranto incontido, o suicídio de Idalina de Oliveira, que não suportou ser estuprada por um oleiro brutamontes e atirou-se nas águas do Mogi Guaçu. Foi uma noticia dolorosa, que transmiti misturando a frieza do jornalista com a emoção de ser humano, pois tínhamos a mesma idade, estudávamos juntos e éramos mais que amigos, quase irmãos.

    Tenho saudade de mim quando voltei para Guatapará depois de vários anos internado na Santa Casa de São Paulo. O que minha pobre mãe, roceira e analfabeta, só conseguiu esmolando ajuda financeira a muita gente e por conta e obra de dona Leonor Mendes de Barros, que atendeu a um apelo feito por carta por meu pai, militante do PSP. A mulher do dr. Adhemar mandou que me fosse aberta uma vaga no Pavilhão Fernandinho Simonsen a fim de que, depois de uma dezena de cirurgias, eu pudesse ter consertadas as minhas pernas, mesmo que parcialmente.

    Tenho saudade de mim na volta para casa, já lá pelos 17 anos, quando decidi enveredar definitivamente pelos caminhos do jornalismo, indo trabalhar como copy da editoria de Polícia em O Diário, em Ribeirão Preto. Depois de três meses sem receber nem mesmo um muito obrigado, deixei de ser jornalista para ser jornaleiro e fui vendendo jornais e revistas no noturno da Mojiana entre Ribeirão e Uberaba.

    Tenho saudade de mim por ter sido um lutador, que na juventude matou um leão por dia para poder estudar um pouco, trabalhar bastante e finalmente, embora com apenas a experiência adquirida nos serviços de alto-falante das quermesses juninas da minha vila, chegar à Rádio Difusora de Jundiaí como locutor. Foi um grande aprendizado, pois ali também tive mestres da maior competência, como José Paulo de Andrade, meu companheiro por vários anos num programa matinal.

    Tenho saudade de mim já repórter esportivo do Jornal da Cidade, também em Jundiaí, onde bebi da sabedoria de um grande mestre, Ademir Fernandes, que não só me ensinou o ofício do jornalismo, mas porque principalmente me legou a humildade própria dos grandes seres humanos, virtudes que levei para o cargo de editor-chefe tempos depois. E que também me abriria as portas do JT como frila do Caderno de Esportes, ponte que cruzei para chegar ao outro lado do corredor.

    Tenho saudade de mim quando, humilde caipira, entrei na redação do Estadão e recebi todas as oportunidades para fazer uma carreira. Uma nova vida durante a qual Deus me concedeu a suprema graça de conviver com profissionais tão famosos quanto simples, que me ajudaram a ser um deles e com os quais pude cultivar uma amizade verdadeira, única, indestrutível. Não me atrevo a citar nomes, pois cometeria várias injustiças.

    Tenho saudade de mim, aventureiro e inconsequente, que decidiu largar tudo e mudar radicalmente de vida ao trocar São Paulo por Roraima. Mas foi aqui que, mesmo sofrendo com as limitações impostas por minha deficiência física, acabei descobrindo o repórter que não sabia existir em mim. Foi aqui onde pude escrever meus melhores textos, com os quais ganhei as manchetes do jornal e prestígio para poder estruturar uma vida pacata na aposentadoria.

    Tenho saudade de mim, esta mais recente, do escritor que ainda tenta pôr no papel tudo o que guarda na memória, sentimento frustrado de não ter transformado em livro tantas experiências, agradáveis ou não. Como as que deram origem à serie de reportagens sobre a ditadura argentina, que em 1983 ganhou Prêmio Rey de España, para orgulho e honra de uma equipe chefiada por Marcos Wilson e que tinha, além de mim, José Maria Mayrink, Luiz Fernando Emediato e Roberto Godoy. [N. da R.: Plínio contou a saga dessa reportagem neste mesmo espaço, na edição 774, de dezembro de 2010]

    Tenho ainda mais saudade de mim, de quem fui, quando começo a sentir intensamente a certeza de que já não tenho tanto tempo mais para fazer tudo o que planejo, mas que continuo sonhando em fazê-lo.

    Tenho saudade de mim, do jovem pacífico e esperançoso, num momento em que a maldade, a violência e a corrupção vicejam lá fora. E então vejo que ainda sou o mesmo ser humano que jamais fez mal a alguém, nem mesmo com palavras, fruto de um caráter que muitos me ajudaram a moldar: meus pais, meus irmãos, meus mestres, meus amigos...

    Por isso tudo e muito mais, que não cabe neste espaço, é que sinto saudade de mim.

    Por: Plínio Vicente da Silva
    Foto: Mario Cesar

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