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Memórias da Redação

    20.08.12 - Memórias da Redação - Spaghetti e a Central de Polícia

    A história desta semana é novamente uma colaboração de Renato Lombardi (relombardi@uol.com.br), comentarista para os assuntos de segurança e Justiça da TV Record.

    Spaghetti e a Central de Polícia

    Outro dia fui ao centro velho de São Paulo encontrar um promotor de Justiça e decidi, depois da nossa conversa, dar uma volta por aquelas ruas onde andei quando comecei minha carreira de jornalista cobrindo os assuntos policiais. Claro que o centro mudou. Do restaurante Gouveia do famoso churrasquinho a vinagrete das madrugadas, nem sombra. Do restaurante Papai da Sé, também. A chegada do metrô mudou aquela região da cidade. E para pior.

    Fui até o Pátio do Colégio e parei em frente ao prédio onde morou a Marquesa de Santos e por anos funcionou o plantão da Central de Polícia onde comecei a dar meus primeiros passos como repórter e a escrever minhas primeiras reportagens. Casarão antigo que hoje está restaurado. Tinha no térreo o plantão com delegado e demais policiais. A sala da Guarda Civil. Nos fundos do corredor, ao lado dos banheiros, a sala da imprensa, território dos repórteres de polícia que aguardavam os acontecimentos e, como na música, rolavam dadinhos. Só não jogavam bilhar.

    Foram muitos os jornalistas que por ali passaram. Um deles, Maurício de Sousa, tornou-se o principal criador de revistas infantis do País com Mônica, Cascão e companhia. Quando cheguei, Maurício tinha voltado para a redação alguns meses antes. Mas havia ainda nas paredes desenhos e caricaturas feitas por ele.

    Entre os repórteres veteranos, havia um com quem aprendi a lidar com delegados, escrivães e investigadores. Ele tinha um jeito todo especial quando telefonava para os plantões das delegacias dos bairros. As ocorrências da região central eram trazidas para onde nós estávamos: o Plantão da Central de Polícia.

    – Caro, caríssimo! – dizia ele. Alguma coisa boa por ai?

    Eu ficava pensando todas as vezes que o ouvia falar daquela maneira como poderia ser coisa boa os assassinatos, acidentes com feridos e mortos, incêndios, tragédias do cotidiano que a polícia passava. Um dia criei coragem e perguntei porque ele usava aquela expressão, “coisa boa”.

    – A gente vai atrás dos grandes casos. Então, tem que ser coisa muito boa para que possamos ir com fotógrafo e voltarmos com uma bela reportagem.

    O nome era Silvio Nunes. Mas todos – policiais e jornalistas – o conheciam por Spaghetti. Era magro, um pouco surdo. O apelido fora dado por um amigo de infância: adorava macarrão.

    Eu trabalhava no Notícias Populares. Ele no Diário da Noite. Meu plantão era das 7 da noite à uma da madrugada. Os jornais mantinham repórteres durante 24 horas. Numa noite de muita chuva, Spaghetti estava na porta do plantão quando um rapaz se aproximou e falando baixo perguntou onde estava o delegado, porque queria confessar a morte do pai. A surdez fez com que Spaghetti entendesse que o rapaz estava procurando o pai, um delegado.

    O plantão naquela noite era de Ortega Granado, que além de solteiro tinha outras preferências. Eu estava perto e ao ver a dificuldade em Spaghetti entender o rapaz perguntei o que queria.

    – Ele está procurando o pai, que é delegado.

    O jovem, pouco mais de 25 anos, virou-se para mim e falou que queria conversar com o delegado porque matara o pai. Achei que estava bêbado mas decidi levá-lo até o delegado, que não acreditou no rapaz, mandando que voltasse para casa ou iria fazer com que dormisse no xadrez.

    Quando soube da verdadeira história do jovem, Spaghetti me perguntou se eu acreditava. Fomos atrás do rapaz, que, parado no Pátio do Colégio, olhava para a Igreja de Anchieta.

    Estudante de Direito, contou que morava com o pai na Bela Vista, discutira com ele e o matara, para em seguida cortar a cabeça com uma faca.

    Decidimos levar o jovem de volta ao plantão e convencer o delegado a verificar a história.

             – Não é possível que até vocês acreditaram nesse xarope!, exclamou Granado.

    Um investigador e um motorista foram até a casa. E nós fomos juntos. E era verdade. O corpo do homem morto pelo filho, um advogado aposentado, estava na sala. A cabeça ao lado de um sofá. O rapaz foi levado para a Central e autuado. Uma tia, irmã do pai, chegou de madrugada e disse que ele tinha problemas psiquiátricos que se acentuaram depois da morte da mãe. Meses depois de autuado, o rapaz foi internado no Hospital de Franco da Rocha, o Juqueri

    Desde esse dia, quando chegava alguém fazendo perguntas, Spaghetti mandava repetir e se eu estava por perto me chamava. Ele trabalhava no Diário da Noite. Morreu faz alguns anos. Naquela época, início dos anos 70, São Paulo tinha vários jornais: Diário da Noite, primeira e segunda edição, Diário de São Paulo, Última Hora, primeira e segunda edição, Estadão, Folha, Folha da Tarde, Notícias Populares, Diário Popular, A Hora, O Esporte, A Gazeta Esportiva, A Gazeta, O Dia, Correio Paulistano.

    A sala da imprensa da Central fechou quando a polícia mudou para o Palácio das Indústrias, no Parque Dom Pedro II, prédio projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo em 1920. Em 1992, virou sede da Prefeitura. Hoje é um museu.

    Por: Renato Lombardi
    Foto: Reprodução - TV R7

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