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Memórias da Redação

    27.01.14 - Memórias da Redação A sigilosa cirurgia nos tempos de Collor

    A história desta semana é do piauiense Antonio Epifânio Moura Reis (antoniomourareis@gmail.com), que havia algum tempo não frequentava este espaço. Ele atuou em Belo Horizonte (Diário de Minas, Diário da Tarde e Correio de Minas), Rio de Janeiro (Correio da Manhã, Última Hora e O Globo) e São Paulo, onde vive desde 1972. Na capital paulista, foi chefe da Redação da sucursal de O Globo, onde ficou quase dez anos, chegou a montar uma empresa de comunicação especializada em publicações empresariais, foi crítico de cinema do Jornal da Tarde e depois da revista VIP, e chefe de Reportagem de Política e repórter da editoria no Estadão. Passou também pela assessoria do Governo do Estado de SP, dirigiu o Diário do Comércio e foi editor de Suplementos e dos cadernos especiais no Diário de S. Paulo, de onde saiu em 2007.

    A sigilosa cirurgia nos tempos de Collor

    O início do governo Collor, em março de 1990, reacendeu, embora poucos se lembrem, a chamada “síndrome do Hospital de Base”, vigente desde que o presidente eleito Tancredo Neves fora internado em 1985, na véspera da posse, para combater infecção que acreditava curável, e deu no que deu. Como vigorava norma do Palácio do Planalto de limitar ao presidente da República o acesso ao confiável Hospital das Forças Armadas, sobrou para as demais excelências civis o poder de requisitar passagens ou velozes jatinhos para São Paulo. E ninguém perdia tempo.

    Repórter da editoria de Política do Estadão, participei sei lá de quantas correrias hospitalares. Inesquecível, entre outras, a entrevista coletiva do cirurgião e futuro ministro da Saúde Adib Jatene na noite do domingo em que um enfarte interrompera, à tarde, o ensolarado fim de semana do senador Antônio Carlos Magalhães em Salvador. Transportado em jatinho para São Paulo, ACM fora operado prontamente pelo dr. Jatene e sua equipe no Hospital das Clínicas.

    Impecável em seu jaleco branco e gravata fina, pouco mais de uma hora depois de concluir a cirurgia, o médico impôs ordem ao grupo de repórteres reunido numa sala do hospital, que se divertia diante de um coração esverdeado, esculpido em madeira, quase do tamanho de um barril de chope, depositado solenemente por um enfermeiro em cima de grande mesa branca. Calmo, seguro, professoral, dr. Jatene retirou do coração de madeira, por  portinholas abertas a leves toques de dedo, finos tubos coloridos de plástico e explicou, sem economia de termos técnicos, o estado deplorável das artérias do senador baiano e como colocou tudo em ordem. Ao final, pelo que me lembro, de cerca de meia hora de exposição, colocou-se à disposição para esclarecer eventuais dúvidas. O silêncio um tanto constrangedor foi quebrado por perguntas circunscritas à previsão de alta, tempo de recuperação e retorno do senador às suas atividades parlamentares. Todos entendemos que o cacique da política baiana sofrera grave enfarte, fora operado eficientemente e por certo viveria mais alguns anos, o que de fato aconteceu.

    As internações de políticos nos rápidos tempos de Collor quase se tornaram pauta permanente desde que, no anedótico 1º de abril – 15 dias depois da posse –, o ministro da Educação Carlos Chiarelli foi trazido às pressas com diagnóstico de síncope cardíaca mas, curiosamente, operado no Hospital São Paulo de diverticulite, a famosa inflamação que atacara dr. Tancredo. Ao visitar o colega ministro, o chefe do Gabinete Militar, general Agenor Homem de Carvalho, sofreu aguda crise renal e se tornou o segundo homem do primeiro escalão do governo Collor a se internar ali mesmo, sem demora.

    O terceiro foi um pouco mais complicado, ou divertido, conforme o jeito de lembrar os fatos, que começaram num início de tarde da última semana do movimentado abril. A sucursal de Brasília agitou a editoria de Política com a informação, exclusiva pelo menos até aquele momento, de que o embaixador Marcos Coimbra, secretário-geral da Presidência e cunhado de Collor, estava internado no Hospital Albert Einstein. Minuciosos, os coleguinhas descobriram o número do apartamento e que o embaixador tinha como acompanhantes a mulher Leda e a cunhada Ana Luísa, irmãs do presidente. E não esqueceram o alerta quanto à fundamental diferença em relação aos casos anteriores: absoluto sigilo do governo. Oficialmente, o Palácio do Planalto não confirmava, o hospital negava e as irmãs Collor disfarçavam a voz ao telefone. O estranho comportamento em tempos de democracia restaurada reforçava a suposição de grave problema de saúde do mais próximo, influente e poderoso integrante da cúpula do primeiro presidente eleito pelo voto popular em 30 anos.

    Como conhecia o diplomata (embora em grau insuficiente para me apresentar como amigo) desde os anos 1960 no Itamaraty, com reencontro na campanha eleitoral – conselheiro e responsável pela agenda do cunhado candidato, Coimbra participou da definição e execução da estratégia de marketing, ao lado do filho Marcos Antônio, do Instituto Vox Populi –, fui escalado. E parti para o Morumbi com o Plano A de tentar chegar direto ao apartamento do embaixador.

    Ajustei a gravata, abotoei o paletó e, esperando não encontrar casualmente algum conhecido da assessoria de imprensa, atravessei o amplo e requintado salão de entrada do hospital e fui calmamente para os elevadores. Mas um halterofilista de terno escuro me abordou e avisou que deveria passar antes na recepção. Observei outros quatro ou cinco óbvios seguranças vindos de Brasília, que tentavam disfarçar andando nas laterais do salão. O contingente exagerado de “homens de preto” no hospital, induzia a uma só percepção: a coisa estava realmente preta.

    Caminhei devagar até o balcão e me apresentei à recepcionista como visitante. Informei o nome do paciente, Marcos Antônio Coimbra, o número do apartamento e a condição de amigo.

    Ela examinou fingiu olhar a lista de pacientes, levantou-se em silêncio e usou um telefone do outro lado do balcão, desprezando uns três ou quatro aparelhos à sua frente. Voltou visivelmente nervosa e afirmou que não havia paciente com aquele nome, indícios definitivos de que que a coisa estava muito mais do que preta.

    Percebi naquele instante, por acaso e sorte, que a porta de um dos elevadores se abriu e reconheci Leda Collor entre as pessoas que saiam. Caminhei rápido em sua direção e a saudei em voz alta:

    – Boa tarde, dona Leda!

    A irmã do presidente parou surpresa e ganhei tempo suficiente para me aproximar e perguntar em voz baixa:

    – Como está o embaixador?

    Ela continuou parada me olhando por algum tempo, poucos segundos certamente, mas com efeito de longos minutos, e murmurou autoritária:

    – Quem é o senhor? Este é um assunto delicado e particular.

    Murmurei de volta: repórter do jornal O Estado de S. Paulo. E contribuí para aumentar a ira da primeira irmã com algo como “desculpe, senhora, mas o secretário-geral da Presidência da República não é assunto particular e delicado, em hospital, significa estado grave”.

    Não sei até que ponto ela ouviu minha frase, pois me virou as costas, passou em frente às portas fechadas dos elevadores e desapareceu no primeiro corredor, seguida pelo atlético homem de preto.

    Meu Plano A estava liquidado. Voltei para a recepção com o único e inevitável Plano B: a carteirinha funcional e o pedido para falar com a direção do hospital. A recepcionista retornou ao telefone distante, conversou rapidamente e, tensão no olhar, disse que eu seria atendido pela assessoria de imprensa. Estranhamente, em poucos minutos – e tudo era estranho naquela tarde no conceituado hospital – apresentou-se um desconhecido engravatado, de uns 30 anos, sem gestual de assessor der imprensa, e me comunicou que, segundo normas éticas, o hospital nada poderia informar sem permissão da família, que considerava o assunto particular. E recomendou que me retirasse.

    Forcei um sorriso de desafio, repeti que nada referente à Presidência da República era assunto particular, que ocorria de fato tentativa de censura , que ele se lembrasse que o Estadão enfrentara a censura do regime militar e que eu não sairia de lá sem informação. E insisti em falar com o embaixador Marcos Coimbra.

    Ele se afastou, liguei para a redação de um dos orelhões na parede e fiz o que poderia fazer: esperei junto ao balcão da recepção, sob olhares menos aflitos e até certo sorriso da recepcionista e vigilância dos homens de preto.

    E ouvi, em poucos minutos, barulho de pneus “cantando”, vozes e movimentação dos homens de preto, indicativos de que a exclusividade da informação da sucursal de Brasília também naufragara.

    A turma estava chegando: equipes dos canais de televisão, com cinegrafista, câmera enorme, “paus de luz”, microfones e quilômetros de fios; os não menos barulhentos repórteres de rádios e os cada vez mais bonitos grupos de mulheres jovens que se tornavam maioria nas redações. A situação se aproximou rapidamente de animada festa até que, sem demora,  apresentaram-se dois reais assessores de imprensa com anúncio de entrevista coletiva. E se esforçaram para por ordem no salão.

    O porta-voz do hospital não se abalou com as luzes fortes nem com a quantidade de microfones, gravadores e das mãos que os seguravam muito próximo a seu rosto: explicou, pausadamente, que o embaixador Marcos Coimbra fora operado na véspera pelo cirurgião Victor Strassmann para “debelar inflamação” que o afligia havia uma semana em Brasília. “Mineiro discreto”, acentuou o porta-voz, Coimbra preferiu manter a internação em sigilo. Mas, “em respeito à liberdade de imprensa”, autorizou aquela entrevista.

    Explicou que o procedimento cirúrgico, “muito simples”, consistira na extração de três pequenos furúnculos em torno de pelos encravados na região da virilha esquerda, “seguida de sutura e limpeza da área infectada”. E informou que o paciente teria alta no dia seguinte, poderia voltar para Brasília e retomar suas atividades.

    Um dos repórteres de televisão se destacou:

    – Então, doutor, o embaixador foi operado de pente...

    Não terminou a frase, interrompido por gargalhada, também coletiva, que incluiu boa parte dos que se encontravam no grande salão do hospital e acompanhava, curiosa, a entrevista. Ouvi em seguida, pelo orelhão pregado na parede, idêntica reação, ao informar a redação as reveladas razões do sigilo imposto pela família presidencial. Ou, na moderna linguagem dos jornais: suposto temor do diplomata secretário-geral da Presidência da República, sua mulher, a cunhada e, supostamente, o cunhado presidente, a respeito de supostos arranhões na dignidade governamental provocados pela divulgação da viagem a São Paulo e internação hospitalar para prosaica da extração de pelos encravados.

    A edição do dia seguinte do Estadão incluiu matéria em duas colunas, assinada – o encontro casual do recorte reavivou a memória e permitiu este relato, mais de 23 anos depois –, em que obedeci ordem de evitar termos chulos, categoria em que os dicionários incluem os pentelhos. 

    Por: Antonio Epifânio Moura Reis

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