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Memórias da Redação

    25.04.14 - Memórias da Redação – Jânio e o estivador

    A história desta semana é uma nova colaboração de José Luiz Carbone, que atuou como repórter nos jornais Cidade de Santos e A Tribuna, de Santos (SP), foi assessor de imprensa em Volkswagen, Cosipa (hoje Usiminas) e Grupo Peralta, redator da Revista Go'Where Beach e hoje tem um blog de dicas de filmes: www.cinedvdicas.blogspot.com.br.

    Jânio e o estivador

                Deve ter acontecido entre 1974 e 1975. Eu trabalhava no jornal A Tribuna, de Santos, e recebi a informação de que o ex-presidente Jânio Quadros acabara de chegar de Londres e iria desembarcar de um navio no porto da cidade. Lá fui eu e o fotógrafo, se não me engano o Rafa Herrera, tentar uma entrevista com Jânio.

                Subi a bordo e percebi que era o único jornalista presente. Bati na porta do camarote e o próprio Jânio abriu. Expliquei que era jornalista de A Tribuna e gostaria de uma entrevista. Ele nos fez entrar e pediu ao fotógrafo que não tirasse nenhuma foto. Em seguida, disse que preferia não comentar sobre nenhum assunto: “Hoje em dia, as paredes têm ouvidos”, disse sussurrando.

                De fato, quando subia as escadas do navio havia percebido uma movimentação estranha em torno do camarote. Deviam ser agentes do Dops. Jânio nos apresentou a dona Eloá, que, muito simpática, nos ofereceu um cafezinho. A partir daí foram uns dez minutos de conversa sobre a viagem, a beleza do alto mar e alguns comentários sobre Londres, onde morava sua filha.

                Quando descemos do navio, um grupo de políticos locais aguardava o ex-presidente. Logo que pisou no cais, Jânio foi abraçado por um estivador que exclamava, aos prantos: “Meu presidente, meu presidente!”. A comitiva saiu e eu voltei para falar com aquele estivador. Tal não foi a minha surpresa quando vi que ele estava sendo detido pela Polícia Portuária, colocado numa perua e levado embora.

                Peguei o seu nome com outros estivadores e, quando estava saindo do cais, dois homens de terno se aproximaram, perguntaram meu nome, em que jornal trabalhava e ainda me disseram: “Você pensa que vai sair alguma matéria disso tudo? Pode esquecer”. Depois disso, foram embora.

                Cheguei ao jornal e a primeira coisa que fiz foi ligar para o escritório do Esmeraldo Tarquínio, político cassado que exercia a advocacia. Ela tinha sido meu colega de classe na faculdade de Jornalismo. Expliquei o que havia acontecido, dei o nome do estivador preso e ele então, com aquele vozeirão de locutor, me prometeu que faria tudo para soltar o homem. Dito e feito: três ou quatro dias me ligou dizendo que conseguira soltá-lo.

                De volta à matéria de Jânio: enquanto a escrevia, incluindo a história da prisão do estivador, chegou um telex da Policia Federal ao jornal proibindo qualquer menção à chegada do ex-presidente ao Brasil. Fiquei chateado, é claro, mas feliz por ter contribuído para a soltura do estivador, numa época em que as pessoas sumiam como num truque de mágica...

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    Por: José Luiz Carbone

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