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Memórias da Redação

    24.03.14 - Memórias da redação  O “senador” 

    Damos as boas-vindas a um estreante no espaço, Eduardo Brito da Cunha, ou apenas Eduardo Brito, editor de Política do Jornal de Brasília, que nos mandou uma história sobre João Emílio Falcão, profissional de imprensa do DF morto perto da virada do milênio.

    O “senador” 

                Nascido no interior do Piauí, em família de classe média, João Emílio Falcão desembarcou em Brasília no final dos anos 1960, para trabalhar como repórter. Passou pela Folha de S.Paulo, pela assessoria de imprensa do Ministério da Educação e, enfim, chegou ao Jornal do Brasil, à época uma das mais cobiçadas redações do Distrito Federal. Foi fazer o que gostava, cobrir o Congresso, onde se dedicava a uma área à época vista como menor: os debates em comissões permanentes e a tramitação de projetos. Os astros da cobertura política preferiam acompanhar as intrigas e a articulação das lideranças, até porque, em plena ditadura militar, o papel decisório do Legislativo era algo próximo a zero.

                Foi então que ocorreu o vendaval representado pelas eleições de 1974. Só para lembrar, àquela época o presidente da República, os governadores e os prefeitos das principais cidades não eram eleitos, mas nomeados. Com a censura e a irrelevância dos mandatos restantes, os eleitores pouco se mobilizavam. Nas eleições de 1970, das 46 cadeiras de senador em jogo, a oposição consentida, o MDB, ganhou apenas cinco, três delas no Rio de Janeiro, uma destas para substituir um cassado. Pouca gente esperaria o sopro dos votos de protesto que ocorreria quatro anos depois. Das 22 cadeiras de senador em jogo nas eleições de 1974, o MDB faturou 16. Ainda por cima, uma das poucas cadeiras que restaram à governista Arena era de Teotônio Vilela, que se revelaria muito mais oposicionista que os emedebistas. Um escracho.

    Justamente pelo resultado lotérico e imprevisto, muitos dos novos senadores que desembarcavam em Brasília eram zebras eleitorais. Em todos os sentidos. Em condições normais, não se elegeriam sequer vereadores. Ao mesmo tempo, havia figuras de peso, que deixariam marcas na história, como Paulo Brossard, Marcos Freire ou Mauro Benevides, este ainda hoje no Congresso. Entre eles o mineiro Itamar Franco, desconhecido no plano federal, que vinha da prefeitura de Juiz de Fora e era conhecido mais pelo temperamento mercurial do que pela ideologia. Também dessa safra, o campeão de votos Orestes Quércia diria, sobre Itamar, que ninguém deveria se impressionar com o temperamento. Era um político frio, centrado, como todos os demais. “Sobre essa história de temperamental”, avisava Quércia, “ninguém se engane, pois é só uma questão de estilo. Só não me perguntem que estilo é esse, porque eu nunca entendi”.

                João Emílio Falcão empolgou-se com a mudança de clima representada pela chegada de tantas figuras diferentes. Aproximou-se imediatamente dos recém-chegados. Apadrinhou os mais toscos – e eram muitos. Em questão de semanas, virou uma referência para eles. Levava todos à sua casa, paparicava, explicava endereços, indicava quem poderia consertar a torradeira elétrica. Também, e principalmente, mostrava o caminho das pedras dentro do Legislativo. Teve seus grandes momentos.

    Chegados pouco antes em Brasília, os novatos do MDB precisavam escolher novo líder. Tudo apontava para a recondução de Franco Montoro, um dos poucos vindos na safra anterior. Mas havia quem quisesse Paulo Brossard. (Acreditava-se que o gaúcho faria oposição mais vigorosa do que o acomodatício Montoro; o tempo viria a demonstrar que era o contrário). Pois foi João Emílio Falcão quem passou a organizar as reuniões da bancada do MDB, agora com vinte senadores. Racharam: dez com Montoro e dez com Brossard. Sentado na ponta da mesa – não na presidência, de Montoro, mas na outra ponta, em frente – Falcão foi quem fez a proposta salomônica. Brossard ficaria por um ano, Montoro pelo seguinte. Para mostrar que as coisas haviam mudado, Brossard seria o primeiro. Os 21 acabaram concordando. Falcão, definitivamente, era o vigésimo primeiro.

                Então deputado – só chegaria ao Senado em 1978 –, Tancredo Neves precisava da boa vontade dos senadores para uma indicação. Não se dava com o único mineiro do MDB, Itamar, visto como aliado de seu arquirrival Magalhães Pinto. (Aliás, Tancredo e Itamar nunca se gostaram). Sugeriram-lhe que falasse com Falcão. Tancredo aceitou. “Ótimo”, disse, “vou procurar ainda hoje o senador Falcão”.

                Itamar evitava o debate institucional. Preferia cutucar o governo em questões mais técnicas, alegando sua condição de engenheiro. Pela primeira vez em mais de cinco anos, a oposição tinha número suficiente para formar CPIs. O arenista João Calmon conseguiu assinaturas de emedebistas para abrir uma investigação sobre o Mobral, uma farsa do regime. Itamar também recolheu apoios e criou a CPI do Programa Nuclear, menina dos olhos do presidente militar de plantão, Ernesto Geisel.

                João Emílio Falcão entrou com tudo na CPI do Programa Nuclear. Em pouco tempo falava mais de centrífugas e de urânio do que um mulá iraniano hoje. Em um sábado, o Jornal do Brasil publicou matéria sobre uma questão técnica, mas de grandes implicações políticas, ligada ao programa nuclear. Cheia de declarações de Itamar Franco.

                Àquela época nem sempre o Jornal do Brasil assinava as matérias, inclusive por conta de birras internas. Mal começara o plantão de sábado quando tocou o telefone da sucursal, no edifício Denasa. Atendeu o chefe de Reportagem, um paulista jovem, que chegara pouco tempo antes a Brasília e, se conhecia bem as manhas da profissão, não tinha grande intimidade com os políticos. Do outro lado, um furioso Itamar Franco.

                Reclamava que o Jornal do Brasil publicara “uma loucura”. Nunca, em momento algum, havia dado entrevista a ninguém do jornal. Nunca fizera qualquer comentário que se parecesse com o que estava na matéria. Tudo o que estava no texto era invencionice barata, sem relação com o que a CPI – “a minha CPI”, dizia ele – vinha fazendo no momento. Após quase meia hora em que Itamar mostrava crescente irritação, o chefe de Reportagem avisou-o de que entraria em contato com o repórter e de que, se fosse mesmo o caso, seguiria a orientação do Jornal do Brasil, que previa o direito de resposta.

                A matéria, claro, era de João Emílio Falcão. Que não estava de plantão. Àquela época ainda não havia celulares, que apareceriam mais de uma década depois. Aí surgiu a complicação. Falcão havia desaparecido. Embora casado, e bem casado, ele nunca escondera seu entusiasmo por mulheres, digamos, menos jovens. “Elas já sabem tudo”, comentava, malicioso. Pelo jeito, aparecera alguém no pedaço. Mandou-se um carro a todos os pontos em que Falcão poderia estar, a todos os bares que frequentava – não eram tantos assim, ainda mais na Brasília daquele tempo – e à casa de todos os amigos dele. Nada.

                Domingo, cedo, Itamar de novo ao telefone. Vasculhara a edição do Jornal do Brasil sem encontrar a retratação que desejava. O chefe de Reportagem desculpou-se, disse que não conseguira contato com o autor, provavelmente em viagem. Como sabia do bom relacionamento de Falcão com os emedebistas, evitou citar seu nome. Acalmou Itamar como pode. Foi difícil. O senador ficou de ligar mais tarde. Falcão continuava desaparecido.

                Noite de domingo, Itamar outra vez no telefone. O pobre chefe de Reportagem já havia usado todas as desculpas que conhecia. Até que Itamar fez a pergunta óbvia. Afinal, quem havia escrito a malfadada matéria? Constrangido e pressionado, o chefe acabou entregando:

                – João Emílio Falcão.

                – João Emílio Falcão?

                – Sim.

                Fez-se silêncio do outro lado da linha. Trinta segundos, um minuto. Itamar enfim respondeu.

                – Então deixa pra lá. Se foi o Falcão que escreveu, provavelmente é mesmo o que eu penso. Passar bem.


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    Por: Eduardo Brito da Cunha

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