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Memórias da Redação

    20.10.11 - Memórias da Redação - Como explicar o inexplicável II?

    Carlinhos Oliveira (coliveira@dcomercio.com.br), hoje no Diário do Comércio de São Paulo, um dos protagonistas (ainda que involuntário) da história que Nora Gonzalez contou em J&Cia 816 sobre os bastidores de um episódio que marcou para sempre a biografia do falecido presidente Itamar Franco, manda uma suíte do caso com algumas alterações.

    Como explicar o inexplicável – II

    Fui apanhado de surpresa (grata surpresa) pela história contada, e bem contada, pela minha querida amiga e colega Nora Gonzales, sobre aquela manhã de Carnaval, em 1994, registrada no Jornalistas&Cia desta semana.

    De fato, a situação é verídica, mas meu compromisso com a verdade me impõe fazer alguns pequenos, mas importantes reparos.

    Naquele dia, cheguei cedo à redação e, minutos depois, o Fábio Almeida Salles, editor de Fotografia, para ao lado de minha mesa, põe um maço de fotos sobre ela e sentencia:

    – Carlinhos, você tem uma bomba nas mãos!

    E tinha mesmo. Vamos aos fatos.

    Pego as fotos e vejo uma mulher relativamente jovem abraçada ao então presidente Itamar Franco, bem desinibida, sem calcinha, de vento em popa e, principalmente, em proa.

    A Nora acertou tudinho até o momento em que eu liguei para o dr. Julio Mesquita e descrevi a cena a ele.

    Eu era responsável pela Primeira Página do Estadão, o que não é pouca coisa, e, naquele momento, tinha de me cercar de alguma forma. Sem intimidade com o dr. Julio, tentei ser didático, como bem exige nossa profissão. E disse:

    – Dr. Julio, a moça está sem calcinha, as fotos foram feitas de baixo para cima e está aparecendo tudo.

    Do outro lado da linha um breve silêncio e a pergunta que eu temia.

    – Carlos, aparecendo tudo o quê?

    – Tudo, dr. Julio.

    – Mas tudo o quê?

    – Tudo, a moça está exposta.

    Nisso, ao longe, entra na redação o Oliveiros S. Ferreira, na época responsável pelos editoriais do Estadão, colega fino, culto e elegante. Acenei para que ele se aproximasse e enquanto falava com o dr. Julio mostrei-lhe as fotos.

    Oliveiros começou a falar comigo e eu não sabia a quem dar atenção, já que dr. Julio ainda estava na linha.

    Oliveiros: – Não podemos publicar isso. É o presidente da República.

    Dr. Julio: – Carlos, o que você acha?

    Eu: – Tenho dúvidas, por isso liguei.

    Dr. Julio: – O que o Oliveiros acha?

    Passei o telefone ao Oliveiros e aí então veio a célebre frase, equivocadamente atribuída a mim.

    Oliveiros: – Julio, Julio, estão aparecendo os grandes lábios!!!

    Decidiu-se, então, que o Estadão não publicaria a moça sem calcinha na primeira página.

    No dia seguinte, vários jornais escancararam as imagens, sem qualquer pudor. À tarde, toca o telefone na minha mesa. Era o dr. Julio.

    – Carlos, deveríamos ter publicado a fotografia.

    Essa foi a história tal qual aconteceu. Certamente, a Nora, que trabalhava na Economia, um pouco distante da Primeira Página, ouviu a conversa de maneira entrecortada, daí o equívoco. Mas tudo bem. Ainda hoje rio muito disso tudo.

    Por: Carlinhos Oliveira
    Foto: Mario Cesar

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