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Memórias da Redação

    09.01.12 - Memórias da Redação – O foca e o incêndio

    Abrimos o ano com uma história de Cláudio Amaral (clamaral@uol.com.br), ex-Imprensa Oficial, Folha de S.Paulo, Estadão e JB, entre outros, que hoje atua como consultor. Cláudio, aliás, informa que está de blog novo. Nele, começou a publicar, texto por texto, o primeiro livro que escreveu em seus 40 anos de Jornalismo. Importante, diz ele: “Aceito críticas e sugestões”.

    O foca e o incêndio

    Inspirado pela colaboração de Plinio Vicente da Silva, a respeito do início de carreira de Zequinha Neto (J&Cia 824), senti-me motivado a escrever sobre uma mancada que dei também no meu primeiro ano como repórter do Estadão, em São Paulo.

    Corria o ano de 1972 e eu havia chegado à Capital havia poucos meses, vindo de Marília (onde fui correspondente local e regional) e de Campinas (onde atuei por seis meses como repórter da sucursal, ao lado do saudoso Mário Erbolato). Em Marília e em Campinas eu cobria todos os assuntos: de esportes (futebol, basquete e tênis, principalmente) a prefeitura, de militares a câmara de vereadores. E não tinha carga horária definida. Entrava de cabeça às 8h e não havia previsão de hora para encerrar o dia.

    Em São Paulo, não. Aqui cada repórter tinha a sua área: Esportes ou Local ou Economia ou Cultura. Mas a carga horária era igual: das 8h ao fim do expediente do jornal. Por conta disso, na minha pauta pessoal meus chefes (Ludemberg Góes, Clóvis Rossi, Raul Martins Bastos e Ricardo Kotscho) escreviam três itens, pelo menos: pela manhã, Palmeiras (ou, eventualmente, São Paulo Futebol Clube); à tarde, Juventus (ou Nacional); no fim da tarde, Federação Paulista de Futebol.

    Foi assim que eu conheci Osvaldo Brandão, Leão, Luiz Pereira, Dudu, Ademir da Guia, Cesar “Maluco”, Leivinha... no Palmeiras, cujo repórter titular era o meu amigo Alfacinha, hoje o famoso Reginaldo Leme. No SPFC, conheci e entrevistei Gerson (o “canhotinha de ouro”), o goleador Toninho “Guerreiro”, Edson, Gilberto “Sorriso”, Gino Orlando (na época, administrador do Estádio do Morumbi). Na Federação Paulista de Futebol, o presidente da minha época era nada menos que o “Marechal da Vitória”, Paulo Machado de Carvalho; e o superintende geral, o jornalista Álvaro Paes Leme de Abreu (São Paulo, 31/8/1912/ – 1/9/1984), fundador da Escola de Árbitros da entidade e pai do nosso hoje companheiro Álvaro José Paes Leme (TV Record).

    Paes Leme, o pai, era um homem grande, corpulento. Tinha uma voz forte e sabia impor sua autoridade a todos nós. Até porque conhecia como poucos (ou como ninguém?) todas as nuances do Jornalismo, da reportagem à edição final. Havia sido, entre outros, um dos profissionais mais respeitados na redação da Última Hora dos anos 1960. Mais: fora comentarista da Jovem Pan e da TV Record.

    Quase todos os finais de tardes, início das noites, Paes Leme ia nos visitar na sala de imprensa da FPF. Passava informações e comentava os fatos futebolísticos do dia. Com autoridade e conhecimentos privilegiados. Exatamente no dia 24 de fevereiro de 1972, ele foi ao nosso encontro para anunciar que não haveria jogo naquele dia no Estádio do Pacaembu. A partida fora cancelada, disse-nos, com sua voz inigualável. Estava havendo um grande incêndio na região central de São Paulo e o gramado do Pacaembu havia sido requisitado para pouso e decolagem de helicópteros que faziam o regaste das vitimas.

    Ai eu entrei em ação, em vez de ficar de boca fechada. Novato, inexperiente, disparei: “Só por isso não haverá jogo hoje no Pacaembu, mestre?”

    Ele imediatamente me levou à lona, a nocaute, com um berro que deve ter sido ouvido ao longo de boa parte da avenida Brigadeiro Luiz Antônio, onde ficava a sede da FPF:

    – Mas, porra, velho, você acha isso pouco?!”

    Botei minha viola no saco e sai com o rabo entre as pernas. Nem boa noite, até amanhã, nos falamos um ao outro.

    Sai do prédio da Federação e fui me juntar às milhares de pessoas que caminhavam pelas calçadas e entre as centenas de veículos (carros e ônibus) que congestionavam as vias públicas.

    Fui andando até o Estadão, na rua Major Quedinho, distante cerca de três quilômetros. Escrevi rapidinho minhas reportagens e fui auxiliar os repórteres que cobriam o incêndio do Edifício Andraus, na esquina da avenida São João com a rua Pedro Américo.

    O chefe da Reportagem Geral, A. P. Quartim de Moraes, me escalou para uma das piores missões que eu poderia enfrentar: acompanhar a chegada dos corpos das vitimas do Andraus e entrevistar os parentes no Instituto Médico Legal, junto do Hospital das Clínicas. Foi terrível. Eu não estava habituado a conviver tão de perto com a morte, quando mais com muitas mortes, corpos carbonizados e parentes desesperados. Foi uma das piores noites de minha vida como jornalista.

    Em tempo: no incêndio do Andraus morreram 16 pessoas e 330 ficaram feridas.

    Por: Claudio Amaral
    Foto: Mario Cesar

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