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Memórias da Redação

    10.11.11 - Memórias da Redação - A lição de Geraldinho Nunes

    A história desta semana é uma colaboração de Luiz Roberto de Souza Queiroz, o Bebeto (lrobertoqueiroz@uol.com.br).

     

    A lição de Geraldinho Nunes

     

    Já lá se vão alguns anos, desde quando a madrinha dos cegos Dorina Nowill me pediu que entrevistasse deficientes de sucesso. Fazia parte da campanha cujo objetivo era tirar de casa, onde viviam enfurnados, as centenas de milhares de cegos que não se arriscavam a buscar a chamada inclusão social.

    Corporativista, como todo jornalista, procurei um “coleguinha” com restrição de mobilidade, Geraldo Nunes, da Rádio Eldorado que, durante meia hora contou, nos estúdios da Fundação Dorina, como sua mãe sofrera ao ouvir dos médicos que o filho jamais seria capaz de andar, como ele resolveu e conseguiu desmentir os médicos com muito esforço, dos erros e acertos, até que um dia se tornou independente e capaz de andar sozinho.

    Contou também da dificuldade para estudar, já que até hoje caminha com duas muletas, dos problemas que teve com as mãos, problemáticas, de como foi difícil, baixo e trôpego, se impor nas coletivas até que descobriu que sua voz forte supria a falta de agilidade. Encantou a todos contando como valorizou a voz que o tornou conhecido, como se sujeitou a fazer os programas de rádio da madrugada, problema menor, porque nunca dormiu bem.

    Geraldinho explicou que estuda permanentemente, especializando-se na história de São Paulo, de como se tornou o “Repórter Aéreo”, a bordo do helicóptero no qual sempre teve dificuldade para subir e com o qual caiu na Marginal do Tietê, sem que esse acidente lhe tirasse a vontade de voar.

    Foi uma história emocionante e ele ensinou aos milhares de cegos que nos ouviram que eles são pessoas como as outras, que os direitos são os mesmos, apesar da deficiência e que essa, no fundo, é só um motivo a mais para lutar e vencer.

    Passaram os anos e em meados de outubro entrevistei duas cegas, “cobaias” do primeiro curso brasileiro de Especialização Olfativa. A ideia é que, sem enxergar e, portanto, sem distrações como a cor do perfume, o formato da embalagem, o cego pode “tornar-se todo nariz”. Dominar os aromas a ponto de identificar em cada aula 50 cheiros diferentes, de temperos a produtos químicos, passando por alimentos e bebidas, capacitando-se ao longo de um ano de estudo muito puxado a trabalhar com as misturas de álcool, essências e demais produtos que, misturados cuidadosamente, compõem os perfumes os quais, combinando-se com o odor de cada pele, vão deixar a mulher com um cheiro único e irresistível.

    A entrevista interessava muito, porque a especialidade é uma das poucas em que os cegos têm melhores condições de vencer do que nós outros, que eles chamam de videntes. E a prova é que, embora ainda estudando, as alunas do curso já são sondadas para empregos na indústria de cosméticos.

    Como sempre, me aproximei das deficientes visuais e me apresentei: “Eu sou o Bebeto, e mais que uma entrevista nós vamos é conversar sobre o curso, porque o escolheram, o que estão achando...”. E fui cortado por uma delas que disse não ser necessária apresentação alguma: “Eu me lembro bem da sua voz e da entrevista maravilhosa que você fez com o Geraldo Nunes, da Rádio Eldorado, que nos ensinou a lutar e a não desistir nunca”.

    A deficiente visual disse isso e, desinibida, foi usando a bengala-longa para avançar pelo corredor acústico e estreito até o minúsculo estúdio. Fiquei um pouco para trás pensando que, tantos anos depois, eu tivera a oportunidade de ver nas duas moças o fruto da árvore cuja semente o Geraldinho plantou. E pensei que é muito bom ser repórter e viver momentos assim.

    Por: Luiz Roberto de Souza Queiroz
    Foto: Mario Cesar

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