APOIO

PUBLICIDADE

Odebrecht
$('#fade').cycle();
6160
Portal dos Jornalistas

Memórias da Redação

    12.05.14 - Memórias da redação – O pão dos anjos

    José Maria dos Santos, editor e colunista no Jornal do Comércio, de São Paulo, novamente fura nossa pequena fila de colaborações com uma história que ele viveu com Dom Tomás Balduíno, bispo emérito da cidade de Goiás, falecido no último dia 2 de maio.

    O pão dos anjos

    Se não me falha a memória, o episódio, extremamente pungente pelas circunstâncias e bem-humorado no seu desfecho, se deu em setembro de 1999. Nós estávamos – Dom Tomás Balduino, que acaba de partir, frei João Xerri, ambos dominicanos, e eu – visitando um campo de refugiados no departamento de Chiapas, sul do México. Os dois religiosos levavam a solidariedade da província brasileira da ordem às comunidades de ascendência maia – comuns naquelas montanhas –, que estavam recebendo ataques sucessivos de milícias paramilitares.  A motivação desse genocídio fatiado tinha, simultaneamente, inspiração racista e a pretensão de promover retaliações contra o Movimento Zapatista de Libertação Nacional, que levava na sua bandeira a defesa das populações indígenas.

    O campo ficava a cerca de 30 km da cidade de San Cristóbal de Las Casas, que se tornou uma capital informal dos zapatistas. A Cruz Vermelha havia estabelecido com seus caminhões pesados um circulo protetor ao redor do terreno, à semelhança do anel de defesa criado pelos pioneiros norte-americanos com seus carroções, conforme nos mostram os filmes de faroeste. Quem já esteve num campo desses sabe da sua absoluta precariedade. Uma infinidade de tendas, erguidas com grosso plástico negro, pontilhava no terreno ondulado. As pirâmides maiores anunciavam algum recinto coletivo, tipo refeitório, posto médico ou apenas os sanitários, que consistiam num buraco aberto à flor da superfície. Nosso grupo foi recebido por um coral de indiozinhos que cantavam, marcando o ritmo no chão com os pés descalços, uma canção folclórica cuja palavra mais pronunciada era “bienvenido”. Vestiam pequenas batas de chita colorida. A apresentação era apoiada por três instrumentistas que portavam, respectivamente, uma guitarra, uma sanfona e um exótico guitarrón. Vinha a ser um gordo violoncelo, tocado com o bojo para cima, no qual o executante utilizava os dedos, como fazem os tocadores de harpa. Sugeria o clássico movimento do pizzicato utilizado eventualmente no violino e frequente no cello e no contrabaixo. Dom Tomás, com simpatia, associando a execução ao tamanho do instrumento, sussurrou-me tratar-se de um “pizzicatón”.

    Encerrado o sarau, fomos convidados a almoçar. Desisti de imediato, ao ver as mulheres preparando a comida – tortillas recheadas com feijão preto. Elas trabalhavam acocoradas na terra nua, ao ar livre, fazendo a massa de milho em cuias de madeira e assando em grandes pedras aquecidas, sem maiores cuidados com a higiene. Evidentemente, aqueles organismos já estavam vacinados contra infecções intestinais, mas, no meu entendimento, estávamos vulneráveis. Para não colocar cruamente o real motivo, pretextei convenientemente a Dom Tomás que deveríamos agradecer o convite e voltar para almoçar em San Cristóbal, argumentando que possivelmente iríamos tirar da boca de alguém o alimento que nos seria destinado, considerando a indigência do campo. Dom Tomás reagiu magnificamente. Levantou os dois braços em direção ao céu lembrando aquela figura do quadro Guernica.

    “José”, exclamou, “este é o ágape que o Senhor nos oferece. Este é o banquete que temos a graça de receber. Não podemos virar as costas para a mesa do Senhor”.

    Obviamente, fiquei mudo. Quem teria o atrevimento de rebater aquelas palavras? Naquele momento tive a clareza do que significa uma epifania. Havia tanta singeleza e dignidade na sua conduta que ainda hoje, ao recordar, fico comovido. E lá ficamos.

    Disfarçadamente, eu me livrei das duas ou três tortillas que me foram oferecidas. Satisfiz-me com um copo de Fanta laranja, que foram comprar às pressas para nos recepcionar. Mas Dom Tomás abençoou e saboreou as suas. Deve até ter elogiado.

    Na manhã seguinte, após o café da manhã no hotel, fui à sua procura no convento dos dominicanos – dominicos, como dizem na língua espanhola – onde estava hospedado, a fim de lhe comunicar a minha agenda do dia. Deveria visitar Ocosingo, uma das várias comunidades autônomas da região que não reconhecem o governo mexicano, controladas pelos zapatistas. Um frei veio à porta me comunicar que Dom Tomás não podia me atender. Inclusive, informou, havia cancelado seus compromissos pelo menos no período da manhã, até que melhorasse de uma indisposição que o havia acometido, à qual se referiu vagamente.

    Preferi não pedir detalhes, respeitando o recato que me fora sinalizado.

    Leia mais
    Memórias da Redação – Sonhando com números
    Memórias da Redação – Jânio e o estivador
    Memórias da Redação – O dia em que Zé Wilker parou a Editora Globo

    Por: José Maria dos Santos

Fiat_Institucional
Newswire
OPN Eventos
MT Viagens
Mais Premiados
Comunique-se
Doe Agora (Abrinq)