Por Assis Ângelo

(Transcrição de entrevista que Chico Anysio deu a Assis Ângelo para a revista Homem & Mulher em 1981) 

CHICO ANYSIO: “Mulher é uma boa. A sapatão que o diga!” 

Francisco Anísio de Oliveira Paula Filho, humorista, comediante, escritor, compositor, 50 anos, quatro casamentos. Dono de uma incrível capacidade de criação, ele se multiplica, se transforma e de repente é Topó, Salomé, Tavares, Meinha, Azambuja, Roberval Taylor e por aí afora, fazendo todo mundo rir. Mas, para HOMEM & MULHER, ele, Chico Anísio, é o seu maior personagem. Veja, nesta entrevista [ao repórter Assis Ângelo], se não é a pura verdade.

Chico Anysio

Homem & Mulher − Na verdade, quem é Chico Anysio?

Chico Anysio (sério, pigarreia, cruza as pernas e se ajeita na poltrona) − Eu sou poeta, teimoso, batalhador, trabalhador, cearense, cabeça chata. Três de mim juntos dá pra fazer um Caravelle descer… (faz pausa, dá um sorriso meio sem jeito; procura, com os olhos, um cinzeiro e acende um cigarro). Sou boa-praça, bom pai, bom caráter; sou mau amigo, porque procuro pouco os amigos; sou bom colega, procuro dar emprego; sou mau marido, pelo menos as aparências indicam; sou bom ator, não um bom comediante ou humorista. É isso aí. Sou impaciente por ser ariano e, por ser ariano, sou explosivo; e por ser explosivo, sou controlado para evitar que pinte a implosão (aqui, ele se abre num sorriso largo, satisfeito, talvez por encontrar as palavras certas para fazer o próprio perfil). Além do mais sou alto, forte, feio, fraco, baixo, lindo, louco, certo, esperto, errado, pilantra, mestre, miserável, estroina, bobo, bêbado, lúcido, lépido, lento, lerdo… dependendo do personagem que eu interprete.

Homem & Mulher − Tudo isso?

Chico Anysio − E mais alguma coisa. No fim, eu sou um covarde que se esconde atrás de várias caras por receio de me expor; ou um mau caráter que, em vez de se dar ao trabalho, prefere pôr vários infelizes para trabalhar no seu lugar. Mas faço questão de ser a música do Belchior, porque nasci num engenho, com o vento agitando o verde-marinho dos pendões da cana, num tempo em que havia galos, noites e quintais. Eu sou o quintal, de pé no chão, pião na unha, pião no mundo, rodando, rodando, rodando, esperando uma palma de mão que o sustente, pelo menos por algum tempo. Cadê?

“MINHA MÃE É MINHA MELHOR PARCEIRA”

Homem & Mulher − Poxa, que fôlego! Você grava discos, programas de televisão e rádio, faz shows, escreve livros, mantém colaborações frequentes em jornais e revistas e faz parceria com um monte de intérpretes da nossa música popular. E, mais ainda, nos faz rir. Agora, responda depressa: em você o que nasceu primeiro, o compositor ou o humorista?

Chico Anysio − Eu acho que os dois nasceram ao mesmo tempo. Não há quem saiba o que vem antes, se o toco ou a água. As coisas vêm no rio. O rio corre, e eu nele. Comecei a fazer letra de música por volta de 1951 com o Jaime Florence, autor de Molambo. Depois com Altamiro Carrilho, Monsueto, Dolores Duran, João Roberto Kelly, Nonato Buzar, dona Aide, minha mãe e melhor parceira. Isso no tempo da Rádio Mayrink Veiga. O humor veio um pouco antes, na Rádio Guanabara.

Homem & Mulher − Como é que você consegue separar todas essas funções?

Chico Anysio − Simples: não tenho esquema nenhum.

Homem & Mulher − …e desenvolver uma por uma sem prejuízo de nada. Nesse seu trabalho tão diversificado você não se confunde, não mistura as bolas?

Chico Anysio − Olha, não dá pra confundir. São coisas muito diferentes. É como jogar futebol, basquete, beisebol. Quer dizer, tudo é jogo… mas são jogos diferentes, todos com bolas no campo, jogadores uniformizados e tal, mas não dá pra confundir (diminui a fala, sorri maroto, levanta as sobrancelhas; ar professoral). Nós podemos confundir economia com finanças, mas isto jamais acontecerá com o Delfim.

Homem & Mulher − Voltemos à música. A rapaziada de hoje não te conhece como compositor. O que é que você acha disso?

Chico Anysio (aparentemente indiferente) − Eu devo isso à falta de sucesso. Se eu tivesse alcançado o sucesso do Herivelto Martins, eu seria conhecido. Mas a música nunca foi o meu degrau mais importante, talvez o descanso da escada.

“SOU MAIS ATOR. O RESTO É ALFACE”

Homem & Mulher − Você disse que não se considera um bom humorista. Compositor, então? Ou escritor?

Chico Anysio − Ator. Mais ator, porque é disso que eu vivo. O resto é alface. (Luiz, o fotógrafo. pede para Chico mudar de poltrona. O comediante não se faz de rogado, e até concorda que a luz ambiente, fraca, pode prejudicar as fotos. E aproveita para dizer que, não faz muito tempo, fez, no Rio de Janeiro, um curso de fotografia com um profissional famoso. Diz também que chegou a montar um estúdio completo e a possuir onze câmaras.)

Personagens de Chico Anysio

Homem & Mulher − Atualmente, e olha que esse atualmente faz anos, fala-se muito em crise. Crise no humor, crise no Carnaval e outras. Há até quem garanta que o circo morreu…

Chico Anysio − Eu vejo isso com muita tristeza, porque é verdade. O rádio foi o veículo responsável pelo surgimento de muitos humoristas. Mas o rádio mudou. Ele hoje se abstém de lutar contra a televisão e, talvez por isso, tornou-se menos importante, principalmente para fazer novos humoristas. Um humorista não se faz em menos de dez anos.

Homem & Mulher − Chico…

Chico Anysio − Eu sou do tempo em que amar era feio, era pecado, era crime. Hoje em dia já se sabe que amar é bonito, é o lógico, é o certo. As pessoas começaram a ter novos interesses, descobriram o surf, o sol, o mar. Isso tudo é um pouco obra da minha geração, que permitiu que a geração atual tivesse o que tem. Apesar disso, acho que já não se fazem humoristas como antigamente.

Homem & Mulher − Quem está fazendo humor hoje no Brasil?

Chico Anysio (num repente) − Os mesmos de sempre. Nós somos vinte. Não aparece ninguém novo, embora eu tenha tentado muito. Cheguei a aceitar convites para ser jurado em festivais de humor da Record e da Globo, mas esses festivais foram cancelados porque faltou material de alguma categoria. Nível péssimo. Os textos que chegaram às nossas mãos eram, em sua maioria, copiados de revistas, banais ou profundamente cultos. Ora, o humorista não tem que mostrar cultura; humorismo é a arte do óbvio.

“SOU A FAVOR DO POBRE, DO PRETO E DO DESEMPREGADO”

Homem & Mulher − Você teve muitos problemas com a censura oficial?

Chico Anysio − Não. Eu nunca tive um texto cortado. Acho até que eu sou o sujeito menos censurado no Brasil, na área do humor, é claro.

Homem & Mulher − A que você deve isso?

Chico Anysio − A minha sinceridade. Eu nunca falei sobre hipóteses, nunca chamei ninguém de ladrão sem ter provas. Sempre falei a verdade. Eu não faço piadas sobre “o que eu acho que”, mas sobre “o que todo mundo sabe que”. Se eu faço uma piada sobre o Juca (Chaves) dizendo que ele tem o nariz grande, ele não pode reclamar. Mas se eu fizer uma piada dizendo que ele é sequestrador, ele pode me processar. E com razão, entende?

Homem & Mulher − Como é que você vê o sistema político implantado há 17 anos no Brasil?

Chico Anysio − Vejo tudo isso com a cabeça fria, porque não tenho culpa nenhuma do que aconteceu. Eu votei no Marechal Lott. Sou do pobre, do preto e do desempregado. E até do assaltante. Eu sou a favor do preso, do menor abandonado…

Homem & Mulher − E a “abertura”, e o liberalismo, e…

Chico Anysio − Acho que todos os excessos são demasiados. Outro dia eu comentava com um amigo que, atualmente no Brasil, só se fazem filmes de sacanagem. Mas acho que essa “abertura” acontece no mundo inteiro e é um processo irrefreável.

Homem & Mulher − Você acredita nela?

Chico Anysio − Eu habito nela. O acreditar não é importante. Acho que não há como evitar, há como maneirar. Se eu só dissesse palavrões nos meus shows, certamente não surtiriam efeito.

“A MULHER MANDA HÁ MUITO TEMPO”

Homem & Mulher − Falar em sacanagem, tem uma história aí que diz que nordestino é homem “até debaixo d’água”. Machismo? O que é que você acha disso?

Chico Anysio − Para mim, esse negócio de machismo é um equívoco. Não tem nada a ver. Acho que a gente andando em dois encontra o caminho mais fácil. O feminismo é a mesma coisa. Aliás, o feminismo nasceu por descuido de uma geração. Besteira pura, porque entendo que a mulher manda há muito tempo. Ela é o meio-campo.

Homem & Mulher − E os outros? Existe o homem e a mulher e os outros: “bicha”, “sapatão”, o escambau.

Chico Anysio (soltando uma risada) − É isso aí. A “sapatão” descobriu que mulher é uma boa, coisa que nós já sabíamos há muito tempo. Mas é uma minoria tão menor que não me preocupa. Inclusive, se eu fizer uma piada sobre “sapatões” não vai funcionar porque há mulheres que nem sabem que isso existe. Portanto, não faz sentido eu me preocupar.

Homem & Mulher − Chico, você não acha que o lesbianismo está aumentando cada vez mais?

Chico Anysio − Não sei, talvez sim, talvez não. Mas acho que o homem perdeu um pouco o romantismo. E a mulher sente falta disso, sem dúvida. Então, se vem uma pessoa e dá atenção à mulher, carinho e tudo o mais, a mulher vai se ligar, se prender a essa pessoa. A mulher quer se sentir mulher, isto é lógico. Também acho que homem nenhum tira uma mulher de outra mulher. Mulher que transa com mulher, “só” transa com mulher. É isso aí. E olha que tenho experiência própria.

Homem & Mulher − Esse tipo de mulher não sabe o que está perdendo…

Chico Anysio − Às vezes até que a danada sabe, só que pensa que acabou. Já tive implicações com mulheres que gostavam de outras mulheres. Mas eu só soube disso depois, porque se soubesse antes eu nem tentava. É uma pena, porque ninguém faz o “gol” sozinho. Alguém tem que dar a bola, é ou não é?


Contatos pelos assisangelo@uol.com.br, http://assisangelo.blogspot.com, 11-3661-4561 e 11-98549-0333

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