Por Assis Ângelo

Pois é, tudo bem. Gosto daqui, deste lugar, onde nasci, brinquei, cresci, virei gente, casei, tive filhos e, depois de algumas tempestades e sutis terremotos, enviuvei.

Como os pássaros, os filhos foram em busca dos seus caminhos. Isso faz tempo, embora não me lembre de quanto tempo.

O tempo é intangível, impegável, impalpável, sem cor. Às vezes engrossa e toma jeito de tornado, tempestade, furacão e tudo mais. O vento é violento quando quer, quando não quer é um doce: suave, cheiroso que nem o perfume de todas as flores juntas.

A propósito, em tempos outros eu cheguei a fazer uns versos atemporais. Diziam:

 

O vento sou eu

O vento sois vós

Sem o vento ventando

O que será de nós?…

 

Eu gosto deste lugar, daqui onde estou a contemplar o bailado mágico das plantas e dos galhos com suas verdes folhas que o vento tanto gosta de soprar.

Sim, eu gosto mesmo deste lugar.

Eu gosto de ouvir o trinado dos passarinhos em bando ali pelo meio da tarde.

O bem-te-vi me faz um bem enorme! E no tempo de chuva, ou de chuva a cair, me vejo em êxtase ouvindo o canto da acauã.

A mim sempre doeu ouvir o bater da asa branca fugindo por prever tempos de seca. É o primeiro pássaro que faz isso.

O lugar cá onde estou parece mais o Paraíso.

Areia é o nome da cidade onde hora me acho e escolhi para viver a minha eternidade.

Essa terra faz parte dos oito municípios do Brejo paraibano.

Do Brejo paraibano faz parte a cidade onde nasceu o popular Jackson do Pandeiro: Alagoa Grande.

Desse Brejo também fazem parte Pilões, que conheci no meu tempo de menino; Bananeiras e Serraria.

Serraria, pegada com Bananeiras, é uma bela cidadezinha, de porte gracioso, pronta para encantar quem a visita. Parece mágica. Foi nessa cidade, onde o vento é sempre brisa e cheiroso como o perfume das melhores pétalas, que nasceu o cantor Roberto Luna.

Não é todo mundo que tem o privilégio de viver aqui.

Aqui em Areia eu nasci e voei para o mundo pra depois voltar.

É uma fazendinha de nome Ninho de Pássaros. Tem sei lá quantos hectares!

Aqui em Ninho de Pássaros tem de um tudo. Exemplo?

Além dos pássaros que voam em bando enchendo o céu de cantos, no chão tem bichos que andam.

A menina Bibiu brinca sem nunca se cansar com coelhinhos e passarinhos.

Bibiu também adora brincar com tartarugas e corujas. Parece encantar tudo com os seus olhos de fantasia.

É uma delícia ver Bibiu hipnotizando a corujinha Bastiana.

E como descrever Bibiu ensinando a tartaruga Xiroca a andar apressada, hein?

E o que dizer de Bibiu correndo e tangendo passarinhos que insistem em brincar com ela?

Bom, Areia, com seus 30 mil habitantes, é uma terra de deuses.

Areia-PB

A história dessa cidade é uma história comprida.

Antes de virar município, num ano qualquer do século 19, Areia recebeu esse nome por causa de um riachinho estreito, de águas cristalinas, do tamanho de nada e muito do bonitinho, com peixinhos miudinhos dando-lhe vida. Eu sei tudo dessa terra.

Corria o ano de 1625, quando a região começou a ganhar casas e virou povoado.

À época, a região era habitada por indígenas da etnia Bruxaxás.

De repente fui interrompido por Margarete, dona Margarete, trazendo nas mãos um telefone. Ela disse, pedindo milhões de desculpas:

− Seu Olégna, é uma ligação internacional.

De fato, do outro lado da linha vinha uma voz feminina doce e firme. Era Flor Maria dizendo que se achava em Veneza, Itália, a caminho da Alemanha e da Suíça. Gostei do que ela disse.

Eu estava mesmo onde?

Atentos à minha volta estavam Zé Perrepe, Zé da Luz e Zé de Bia, sem a Bia.

Eu nem precisei terminar a frase quando Zé Perrepe disse logo:

− O Sr. estava falando a respeito do povoado que virou Areia.

Ouvi palmas ante a fala de Zé Perrepe.

Eram palmas que vinham dos amigos Onaldo, Ribbas, Klévisson, Rômulo, Maurício, Marcelo, Peter, Betão, Osvaldo Mendes, Faustino, Celso Sávio, Valmir Salaro, Zé Nêumanne, Chico Anísio, Joyce, Irene, Fatel, Cilene, Silvia, Júlia, Madalena, Rebeca, Júnia, Cristina, Marília, Célia, Anna e a violeira Mocinha de Passira, que vieram até aqui sob o pretexto de me parabenizar pelos meus supostos… sei lá quantos anos!

Pense numa risada estrondosa, bombástica! Era o cantador Oliveira de Panelas trazendo a tiracolo Otacílio Batista, Zé Limeira, Kydelmir Dantas, Jarbas Mariz, Sebastião Marinho, Ivanildo Vila-Nova, Geraldo Amâncio, Mário de Andrade, João Cabeleira, Téo Azevedo, Wilson Baroncelli, Manoel Dorneles, Jorge Araújo, Eduardo Ribeiro, Audálio Dantas, os irmãos Paulo e Jean Garfunkel, Paulo Caruso, Jessier Quirino, Zé Hamilton, Marcos Zanfra, Wilson Seraine, Carlos Silvio, Leonel Prata, Loyola Brandão, os emboladores Cajú e Castanha e o todo prosa Fausto Bergocce. Um timaço.

Bom, como eu ia dizendo: em 1625 o que hoje é Areia era um pequeno povoado do tamanho de quase nada, porém lindo que só! Enfim, devo dizer que Areia é uma terra legendária. Aqui nasceram o pintor Pedro Américo, autor do famoso quadro O Grito do Ipiranga e o escritor e político José Américo de Almeida, que chegou a ser governador da Paraíba e ministro do governo Vargas. Fora isso e mais importante, foi o autor do marcante romance A Bagaceira.

No correr dos anos, Areia gerou filhos corajosos e brilhantes. Muitos deles participaram da Revolução Pernambucana (1817), da Confederação do Equador (1824) e da Revolução Praieira (1848).

Foi em Areia que se travou a batalha derradeira da Praieira, em 1849.

− Muito bem, muito bemm seu Olégna Cameron!

Era o historiador José Octávio chegando e batendo palmas, com aquele sorrisão e jeitão só dele.

Não custa dizer pra quem não sabe que esse Zé Octávio é o mais reverenciado historiador do Nordeste e, por que não dizer, do Brasil.

É bom que se diga que estamos num amplo espaço pontilhado de plantas e árvores frutíferas.

É bom que se diga também que estamos aqui na fazenda degustando um bom feijão verde com carne de panela e um churrasquinho dando sopa, enquanto molhamos o bico com uma cachacinha de nome Volúpia. Hummmm… essa cachacinha dela quem me falou foi Jarbas Mariz.

Dessa cachacinha boa para o gogó quem também me falou foi o poeta e juiz de Direito Onaldo Queiroga.

Lá dentro as mulheres estão preparando cuscuz, macaxeira, inhame, um baiãozinho de dois pra três, pra quatro, pra cinco… e tapioca de todo tipo. Como sobremesa tem caju, jaca, manga, laranja, banana, melancia, mamão e até fruta-pão.

Pois é, fruta aqui dá o tempo todo.

E ia me esquecendo: também tem mel e rapadura a granel diretamente de nosso engenho.

Da igrejinha perto daqui o sino está dando conta da hora: treze.

O dia de hoje é sábado.

O céu de brigadeiro, lindo, mostra o sol mandando faíscas.

O vento faz uso da sua força e beleza para balançar os galhos e folhas das árvores muitas centenárias.

Em dado momento sai de algum lugar um som de rabeca.

Outra vez, chega até mim a prestativa Margarete. Diz que acabara de falar ao telefone com Flor Maria. Perguntei: e daí?

Margarete sempre atenciosa, contou que Flor Maria tinha convencido os escritores a estarem aqui logo, logo e que ela mesma já está de volta ao Brasil.

Essa Flor Maria não é brinquedo, não!

Zé da Luz pergunta:

− Quem é Flor Maria?

Eu digo a Zé da Luz e a todos que queiram ouvir: Flor Maria é a coordenadora de pesquisa do Instituto Memória Brasil. Uma fotógrafa e tanto, com canudo outorgado por Harvard. É a melhor que há.

− Ela foi fazer o que lá na Europa?

É o cantador Oliveira de Panelas, com aquele vozeirão de trovão intergaláctico, curioso, perguntando o que perguntou.

Matando a curiosidade do cantador, eu disse que Flor está acompanhada de assistentes com a missão de combinar uma entrevista reunindo Pietro Aretino, Sade, Rétif de La Bretonne e, principalmente, Giacomo Girolamo Casanova.

Giacomo Casanova

− Poxa vida! Verdade!?

− Isso mesmo, pessoal. A ideia é mostrar a vida desses namoradores que fizeram história e ainda dão muito o que falar.

− Muito bom! Muito bom!

Zé da Luz:

− Eu já ouvi falar desse tal de Casanova. Seu Assis, com todo respeito, eu lhe desafio para um embate ao som de viola com a temática Ca-sa-no-va. Topa?

− Fazer o quê, hein?

O multitudo Luiz Wilson levanta a mão pedindo pra falar. Mais do que isso: declamar de improviso uns versos sobre o famoso garanhão de Veneza que já rendeu até filme de Fellini:

 

Das histórias de amor

Do passado, se comprova

Cito o galanteador

Aqui nesta minha trova

Que por ser namorador

Transformou-se em sedutor

O famoso Casanova!

 

Boêmio na sua época

E grande conquistador

Se inspirou no poeta

Pra’s mulheres foi terror

Para trazer à Memória

Pesquise a sua história

Casanova o sedutor!

 

Ao fim da fala cantada Wilson sorrindo fez gesto de agradecimento pelas palmas a ele dirigidas.

É a vez do poeta Klévisson Viana pedir pra dizer uns versos citando Casanova. Ele faz uma comparação…

 

A vida de um sedutor

Nunca foi vida vadia

É um serviço pesado

Mata-se um leão por dia

Venha conhecer o Don

Juan da Periferia

 

A sua alcunha é Francisco

Filismino das Donzelas

Já nasceu predestinado

Pra ser amado por elas

Chico Tripa para os íntimos

Por ter pernas magricelas

 

Don Juan, ou Casanova,

Perto de Tripa era brocha

O elemento é do tipo

Iludidor de cabrocha

Que só olhando pro rastro

Acendia a sua tocha

 

O som da rabeca continua chegando até nós.

Como se tivessem ensaiado, os artistas presentes acorreram em direção ao som. E lá estava Bibiu tocando uma rabequinha que que aprendeu com Deus. Num piscar d’olhos, Cajú e Castanha sacam os pandeiros e mandam ver. O mesmo fazem os violeiros e tudo vira uma festa.

Lá do fundo ouve-se a voz do Nêumanne chamando a atenção para a chegada do compositor e maestro Júlio Medaglia, trazendo consigo o amigo e também maestro Marcos Arakaki. Alto e bom som todos batem palmas e gritam em uníssono:

− Viva o maestro! Viva o maestro!

Julio sorri, agradecendo.

Não estava combinado, mas o maestro trouxe um violino pra tocar.

Perguntam-me:

− Seu Olégna, o maestro vai tocar o quê??

É João Cabeleira perguntando um tanto tímido. Acho graça na pergunta e sugiro que a dirija ao maestro, que se adianta:

− Estou à disposição de vocês!

Zé da Luz volta a me provocar. Insiste na questão se vou ou não aceitar o seu desafio.

Antes que eu respondesse a Zé da Luz, Zé da Bia pergunta quem são os estrangeiros que vêm à fazenda. De improviso respondo sem viola, sem nada:

 

Esse tal Marquês de Sade

Nunca foi brinquedo não

Cabraxo do sadismo

Filho da praga, pai do cão

Veio à Terra pra fazer

Do prazer aberração!

 

Pietro era devasso

Mulherengo, tarado

Mulheres o chamavam

De amor, meu namorado

Enfim a vida é fácil

Pra quem é bem criado

 

Rétif de La Bretonne

Sempre foi um bom autor

Escreveu diversos livros

Com histórias de amor

No campo filosófico

Foi um grande pensador

 

De repente alguém levanta a mão. É Joyce perguntando sobre Casanova. De improviso, respondo:

 

Não era do barulho

Ele era do baralho

Amava vida boa

E odiava o trabalho

Pra ele as mulheres

Foram sempre do caralho!

 

Depois das palmas, de novo ouço Zé pedindo desafio. Em uníssono, todos fazem a pergunta:

− E aí, vai ou não vai?

Foi então que pedi uma viola.

Zé da Luz abriu um sorrisão na cara, também batendo palmas. Pigarreou e perguntou se não tinha uma caninha na casa pra molhar o bico.

De bate-pronto, quase num passe de mágica, surgiu nas mãos de Zé um copo esborrotando, que rapidamente emborcou goela abaixo. Feito isso, pegou a viola e começou a dedilhá-la e a cantar:

Festa do Assis (Crédito: Fausto Bergocce)

Era veneziano

O mais famoso sedutor

Nascido para ser padre

Desistiu, foi professor

Pra com calma ensinar

Os caminhos do amor

 

Eu:

 

Foi um aventureiro

Diferente dos demais

Não pensava duas vezes

Pra quebrar regras legais

Pra ele certas coisas

Eram muito naturais

 

Zé da Luz:

 

A mãe era uma atriz

E o pai um bom ator

O casal teve seis filhos

Entre eles um pintor

Que fixou em tela

O mano galanteador

 

Eu:

 

Era um cara simples

Bonito e elegante

Andava bem vestido

Com firmeza, confiante

Chamava a atenção

Por ser também galante

 

Zé da Luz:

 

Varão, forte e viril

− E bem dotado também!

Andou por todo canto

Num eterno vai e vem

Verdade seja dita

Nunca dormiu sem ninguém

 

Eu:

 

Casanova era fã

De Pietro Aretino

Um poeta sem-vergonha

Devasso e cretino

Diziam inimigos

Do ousado libertino

 

La Courtisane Amoureuse (Pierre Hubert Subleyras – Museu do Louvre)

 

Zé da Luz:

 

Mas ele não ligava

Pois tempo não perdia

Gostava de bom vinho

De mulher e putaria

Quando queria chamava

O Deus Baco pra orgia

 

Eu:

 

Por um rabo de saia

Tudo fazia num piscar

Leão caçava a pau

E onça fazia miar

Do céu tirava o sol

Somente pra se mostrar

 

Zé da Luz:

 

Casanova foi um cara

Que gostava de pecar

E pecava todo dia

Sem poder se controlar

Sua fama ele fez

Pra na história ficar

 

Eu:

 

No seu tempo fez de tudo

Com beleza, alegria

Seu prazer era o prazer

Que dava e recebia

Casanova fez de tudo

Com mulher o que queria

 

Sob uma chuva de palmas, Zé da Luz e eu chamamos Sebastião Marinho e Oliveira de Panelas para darem continuação à prosa poética improvisada ao som de violas.

 

Marinho:

 

Um amante completo

No rigor da perfeição

Casanova sempre foi

Um mestre da sedução

Pra ele toda mulher

Era benção da Criação

 

Oliveira:

 

Esse cara fez de tudo

Inda mais até faria

Pra um dia ser lembrado

Pelas coisas que sabia

No seu mundo aprendeu

A viver com ousadia

 

Marinho:

 

Casanova nunca teve

Nem limite nem noção

Por uma mulher gostosa

Agarrava até o Cão

O inferno todos sabem

É o mundo da perdição

 

Oliveira:

 

Pode ser pode não ser

Verdade o que contou

Mas ele contava bem

As batalhas que travou

Sua luta era na cama

Com as mulheres que amou

 

Marinho:

 

Nesse mundo ele passou

Amando e sendo amado

Pra onde quer que fosse

Era sempre desejado

As mulheres viam nele

Um macho apaixonado

 

Oliveira:

 

Casanova não fumava

Casanova não bebia

Casanova tinha medo

De brochar em plena orgia

Por isso se cuidava

Pra fazer o que fazia

 

Marinho:

 

O cara no entanto

Não era brinquedo, não

Estava sempre pronto

Pra entrar em ação

Mulher ele chamava

Para chamegar no chão

 

Oliveira:

 

Viver é coisa boa

Mas é bom ter cuidado

Quem anda sem destino

Pode pegar trem errado

Um trem de pés pra cima

É um trem descarrilado

 

Marinho:

 

Pacato de bom papo

Detestava confusão

De briga ele fugia

Sem nem topar discussão

Porém um dia foi preso

E atirado na prisão

 

Oliveira:

 

Fora vítima de quem?

E qual a acusação?

Quem seria seu carrasco

Alguém da Inquisição?

Ou um maluco qualquer

Sem rumo, sem direção?

 

Marinho:

 

Agora o que fazer

Ali encarcerado

Que nem um preso qualquer

Depois de condenado?

Fugir, tinha de fugir

Pra não ser crucificado

 

Oliveira:

 

Pra isso fez um plano

Pra lá de bem bolado

Furar uma parede

Subir lá no telhado

E pronto! Estava livre

Que nem um ser alado

 

Marinho:

 

Muita coisa ele fez

Até mesmo por compulsão

Estudou e aprendeu

A arte da tradução

Não à toa encantou-se

Com Homero e Platão

 

Oliveira:

 

Teve tempo pra ouvir

Muito tempo para ler

Escutando aprendeu

A cultura do saber

Seguindo essa trilha

Completou-se no prazer

 

Marinho:

 

Traduziu Ilíada

Para italianos

Livro trata da guerra

Entre gregos e troianos

Que começou com um rapto

E durou mais de dez anos

 

Oliveira:

 

Aprendeu tudo que quis

No belo campo da cultura

Leu Dante, Camões e Sade

Mestres da literatura

Porém ele aprendeu

A viver com pica dura

 

Marinho:

 

Tinha sorte no amor

E no jogo tinha azar

Não sabendo o que fazer

Ajoelhou-se pra rezar

Seu destino era perder

Muitíssimo antes de ganhar

 

Oliveira:

 

Morreu longe de casa

Esquecido, sem ninguém

Distante das mulheres

E dos seus filhos também

No jogo perdeu tudo

Um por um cada vintém

 

Zé da Luz:

 

Atenção, chegou agora

Direto de São Salvador

Gregório de Matos e Guerra

Inspirado cantador

Que hoje já é lenda

Como grande pegador!

 

Ao cantar o que acaba de cantar, Zé da Luz inesperadamente de todos chama a atenção para a figura alta, esguia, com ar irônico e despachada que acaba de chegar à roda de cantoria. Durante muito tempo encheu o saco de muita gente e do clero, inclusive. Só não foi excomungado porque o papa do seu tempo estava provavelmente de pileque, ou soltando palavras de amor no ouvido de alguma beata. Oliveira e Marinho ofereceram suas violas ao mesmo tempo ao ilustre visitante, que sorriu. Pegou a viola de Oliveira e começou:

Gregório de Matos e Guerra

As excelências do cono

é ser bem grande, e papudo,

apertado, bordas grossas,

chupão, enxuto, e carnudo.

 

Com cachopinha de gosto

em cama de bom colchão,

nos peitinhos posta a mão,

e o pé no fincapé posto:

ajuntar rosto com rosto,

dormir um homem seu sono,

acordar, calcar-lhe o mono

já quase ao gorgolejar,

então é o ponderar

As excelências do cono.

 

Eu na minha opinião,

segundo o meu parecer,

digo, que não há foder,

senão cono de enchemão;

porque um homem com Sezão,

inda sendo caralhudo,

meterá culhões, e tudo,

e assim mostra a experiência,

que do cono a excelência

É ser bem grande, e papudo.

 

É também conveniente,

que não tenha o parrameiro

a nota de ser traseiro,

e que seja um tanto quente:

que às vezes mui facilmente

são tais as misérias nossas,

que havemos mister as moças

para regalo da pica

com cono de pouca crica,

Apertado, bordas grossas.

 

Mas a maior regalia,

que no cono se há de achar,

para que possa levar

dos conos a primazia

(este ponto me esquecia)

para ser perfeito em tudo,

é nunca se achar barbudo,

por dar bom gosto ao foder,

como também deve ser

Chupão, enxuto, e carnudo.

 

Ao findar o último verso cantado, Gregório inclina-se um pouco com a viola nas mãos em agradecimento à chuvarada de palmas e hurras que lhe são dirigidas por todo mundo. Oliveira toma pra si a palavra. Diz, entusiasmadíssimo, que Gregório é sem dúvida um mestre na arte da cantoria:

− O cantador Gregório nos dá uma aula de graça, saber e espontaneidade discursiva e poética. Abriu o baião com um mote, glosou tudo bonitamente em décimas de cantador.

O entusiasmo contagia todo mundo que, em coro, pede aos gritos que Gregório continue. Sem se fazer de rogado, põe a viola no peito e recomeça:

 

É este, o que chupa e tira

vida, saúde, e fazenda,

e se hemos falar verdade

é hoje o Amor desta era.

Tudo uma bebedice,

ou tudo uma borracheira,

que se acaba ao dormir,

e c’o dormir se começa.

O Amor é finalmente

um embaraço de pernas,

uma união de barrigas,

um breve tremor de artérias.

Uma confusão de bocas,

uma batalha de veias,

um reboliço de ancas,

quem diz outra coisa é besta.

 

Novas palmas enchem de alegria o ambiente.

Mocinha de Passira, quieta até agora, aproxima-se do cantador para parabenizá-lo e abraçá-lo com fervor. Puxa-o pelo braço e o leva até à churrasqueira, onde já se acham Jarbas, Julio, Jorge, Mário, Dorneles e Jessier Quirino.

Enquanto isso, Cajú e Castanha pegam de novo seus pandeiros e começam contando lorotas pra emendar num gancho de putaria:

 

Eu vou mostrar a diferença

Nesse meu repente nobre

Da mulher do corno rico

Pra mulher do corno pobre

 

A mulher do corno rico

Transa em motel de luxo

Pede só bebidas finas

No conforto rela o bucho

Numa cama bem fofinha

Deita e rola com o urso

 

A mulher do corno pobre

Transa mesmo é no mato

Sai mordida de formiga

De mosquito e carrapato

É que o danado do urso

Não pode pagar um quarto

 

A mulher do corno rico

Usa perfume francês

A calcinha é de renda

Troca todo dia três

Camisinha de primeira

Ela exige do freguês

 

A mulher do corno pobre

Usa perfume fuleiro

A calcinha é de algodão

E fica nela o mês inteiro

A camisinha que conhece

É de tripa de carneiro

 

A mulher do corno rico

Vive ganhando presente

É vestido, é sapato

É casaco, é corrente

Quando ganha carro zero

Ela fica bem mais quente

 

A mulher do corno pobre

Essa aí não ganha nada

Ao contrário ela leva

É sopapo, é porrada

Leva murro, leva tapa

Pra ficar mais assanhada

 

A mulher do corno rico

Tem babá, tem motorista

Só frequenta lugar fino

Tem cartaz com colunista

Muitas vezes com o urso

Sai em foto de revista

 

A mulher do corno pobre

Coitadinha passa mal

Anda só de coletivo

Só frequenta chaparral

Só é vista com o urso

Em folha policial

 

A mulher do corno rico

Todo ano faz cruzeiro

Agarrada com o urso

Se diverte no estrangeiro

Do coitado do marido

Ela esbanja o dinheiro

 

A mulher do corno pobre

Também sai pra passear

Agarrada com o urso

Por aí vai turistar

Na ilha do Maruim

Vai tomar banho de mar

 

O baiano Gregório vira rapidamente centro de atenção. Ele e o casal que o acompanhou até aqui.

Curiosa, mocinha pergunta a Gregório quem são aquelas duas pessoas que o acompanham. E ele:

− Laurindo, diga a essa bela mocinha quem são vocês.

O casal se identifica rindo e bem à vontade dizem ser ele Laurindo Rabelo e ela, Francisca Júlia César da Silva.

Surpresa e sem se conter, Mocinha pergunta:

− Laurindo é o autor do poema safado As Rosas do Cume?

Pego assim de supetão, Laurindo balançou a cabeça afirmativamente, acrescentando:

− E essa mulher é simplesmente a autora do poema Dança de Centauras.

O destrambelhado Inácio da Cangaceira, lá de trás, tira da memória alguns versos do famoso As Rosas do Cume:

 

No cume da minha serra

Eu plantei uma roseira

Quanto mais as rosas brotam

Tanto mais o cume cheira

 

À tarde, quando o sol posto

E o vento no cume adeja

Vem travessa borboleta

E as rosas do cume beija

 

No tempo das invernadas

Que as plantas do cume lavam

Quanto mais molhadas eram

Tanto mais no cume davam…

 

Zé Ruela, que a tudo acompanhava um tanto nervoso, se mexendo todo, querendo falar, enfim toma coragem e após interromper Inácio da Cangaceira pergunta com a voz enrolada e copo na mão:

− Vocês conhecem essa outra do Seu Laurindo?

E antes de ouvir qualquer resposta, começou:

 

Amor, ao teu carro em vão

Tu me pretendes jungir

Eu não te posso servir

Já não tenho mais tesão

De putas um batalhão

Já forniquei noutra era

Já fodi com porra fera

Mulatas, brancas e pretas

Hoje só como punhetas

Já não sou quem dantes era!

 

Todos batendo palmas, muita algazarra, brindes!

Levantei-me pedindo licença e perguntando se alguns dos presentes conheciam o poeta Renato Caldas, do Rio Grande do Norte. E antes que dissessem sim, porque não disseram, eu comecei:

 

Talvez não tivesse cheiro

Servia de brilhantina

Ninguém cagava em latrina

Se merda fosse dinheiro

Todo mundo era banqueiro!

Sanitário era baú

Porém aqui no Assu

A terra do interesse

Se tal coisa acontecesse

Pobre nascia sem cu

 

Enquanto dava uma bicada de boa cana e mordia um taco de carne de sol, Jarbas deu um berro chamando a atenção pra si.

− Esse poeta é dos bons. Supimpa!, disse emendando:

− O Carlos Lacerda era doido pelo Renato.

− De fato! O Lacerda chegou até a patrocinar um livro do Renato, confirmou o professor Wilson Seraine.

− O Wilson sabe das coisas. Ele é da terra do João Cláudio Moreno, o Piauí, disse batendo palmas o Jessier Quirino.

Aqui em Areia a vida é como no céu: ótima!

Aqui tem de tudo. Tem fruta de todo tipo, legumes que não acabam nunca, pé de coco, pé de caju. O que se plantar por cá, dá. A fava daqui é grande, bonita e gostosa. Não há feijão e arroz melhor do que aqui na nossa Areia. Aqui ninguém sabe o que é fome. E o clima, hein?

Bom, somos um país tropical. Mas nesse país o clima difere aqui e ali, sem mudar radicalmente suas características.

Aqui nessa terrinha o mês mais quente é janeiro. O mais frio são três: junho, julho e agosto.

No mês de calor mais forte os termômetros marcam até 31 graus. No tempo de frio, a máxima chega a 27 graus.


Contatos pelos assisangelo@uol.com.br, http://assisangelo.blogspot.com, 11-3661-4561 e 11-98549-0333

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